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O eterno revisor

15 de Julho de 2009

ocO acontecimento literário de 2008 foi o lançamento de um novo Herberto Helder. A Faca Não Corta o Fogo, edição de 2000 exemplares* (que são quase dois mil exemplares a mais em relação ao que um livro de poesia vende habitualmente) esgotou em poucos dias e foram muitos os que ficaram desesperados por não conseguirem um exemplar (grupo onde, triste, me incluo).

Mas eis que chega 2009 e com ele uma notícia que até nem era imprevisível. Lança-se Ofício Cantante, a nova poesia completa do autor português, que toma o título emprestado da primeira reunião dos seus trabalhos, editada em 1967 pela Portugália.

Como criticar Herberto, (leia-se em criticar um humilde ler) quando tantos e tão melhores do que eu tentaram e falharam? E mesmo os poucos habilitados a não falhar sentem e admitem o peso da tarefa. É, para mim, impossível encontrar falhas ou exaltar a perfeição no poeta que eternamente se revê a si próprio, limando, trabalhando, depurando cada verso, insistentemente. Essa perfeição, que de tão perseguida, ao mais simples significante faz corresponder significados quase impensáveis: “A menstruação quando na cidade passava / o ar. As raparigas respirando” (p. 196).

“Há dias em que basta olhar de frente as gárgulas / para vê-las golfar sangue” (p. 364) e há dias em que quase tenho medo de abrir Ofício Cantante porque me sei incapaz de sentir o eterno poema contínuo que é a obra herbertiana: “não tenho / o dom de um paraíso de avencas rutilando / ao frio” (p. 461). E sem dar por isso, abro-o, percorro-o, sentindo-me mais pequeno a cada página, mais insignificante a cada verso perante o génio (sou dos que exultam Heberto, talvez por me saber pequeno, e não dos que o negam, talvez por inveja de admiração) que não é simples génio mas proletário incessante na fabricação do poema.

Sem dar por isso, chego ao derradeiro verso, “abrupto termo dito último pesado poema do mundo” (p. 618). De cada vez que o faço, pergunto-me: como ler o maior poeta vivo da língua portuguesa?

*Na verdade, segundo me diz o Changuito, a edição não foi de 2000 exemplares mas de 3000.
Crítica a Ofício Cantante, de Herberto Helder para a edição do JUP de Junho (pode ser consultada aqui).
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4 comentários

  1. Caro Tiago
    quem nos dera que um livro de poesia em Portugal vendesse 1000 exemplares. É menos, muito menos. Por regra.

    Um abraço
    palomar.


  2. Bem verdade, caro Palomar. Se eu um dia editar um livro, fico contente se vender 100 exemplares.

    Um abraço,

    tsg.


  3. Caro Tiago,
    uma pequena correcção:

    A tiragem do livro de Herberto foi de três mil, e não de dois mil.

    Cumprimentos,
    Changuito


  4. Obrigado pela correcção Changuito (e bem-vindo).

    Um abraço,
    tsg.



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