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Da Cidade e das Serras, parte I

27 de Julho de 2009

Tormes. Meca Queirosiana (assim o diz Campos Matos). Parti de Campanhã em nervos, sem saber bem porquê. Talvez porque não soubesse exactamente ao que ia, talvez. O comboio carregado de soldados para a Régua; eu, encolhido a um canto. À minha frente alguém lia um qualquer livro da série Harry Potter – quase me senti mal por estar a ler um escritor tão demodè, tão pouco conhecido, alguém cujos textos só foram passados ao cinema por esse infernal Manoel de Oliveira, um senhor de nome José Maria mas que apenas assinava como Eça de Queiroz. Quase deixo passar a estação, o comboio vai barulhento e não há aviso sonoro. Levanto-me com as malas em rebuliço, eu em rebuliço, precipito-me para a plataforma. Eis-me chegado à Ermida, onde fiquei a dormir durante toda a semana.

Conheço os meus primeiros colegas logo à saída do apeadeiro enquanto esperamos a partida para a Quinta da Ermida. Simpáticos mas ainda sintécticos. Da carrinha somos imediatamente enviados para a sala onde o jantar já está a ser servido para aqueles que, lestos, chegaram mais cedo. Ainda não tenho quarto, mas tenho sopa. E uma cara familiar: o meu único conhecido no curso já lá estava.

Para quem ainda não tinha cama e carregava com sacos, o jantar foi demasiado longo. Já deviam ser perto das vinte e três quando finalmente entro num quarto que chamei meu. Isto para sair quase de imediato: era tempo de travar as primeiras conversas, bem queirosianas, ou não fossem pela madrugada dentro.

Diário diferido de Tormes.
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5 comentários

  1. o mesmo Campos Matos que escreveu as Sete Biografias?
    (tiveste muita “sorte” tu mas pelo que escreves aqui vais justificá-la 🙂


  2. Sim, esse mesmo. 🙂

    Hoje não escrevo (ainda comecei o primeiro dia, mas a coisa não me estava a correr bem).

    Beijo,
    tsg.


  3. « – Sim, está de escachar!
    E ainda o torpe som não morrera, já uma aflição me lacerava, por esta chulice de esquina de tabacaria, assim atabalhoadamente lançada como um pingo de sebo sobre o supremo artista das ‘Lapidárias’, o homem que conversara com Hugo à beira-mar!… Entrei no quarto atordoado, com bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente outra frase sobre o calor, bem trabalhada, toda cintilante e nova! Nada! Só me acudiam sordidezes paralelas, em calão teimoso: – ‘é de rachar’! ‘está de ananases’! ‘derrete os untos’!… Atravessei ali uma dessas angústias atrozes e grotescas, que, aos vinte anos, quando se começa a vida e a literatura, vincam a alma – e jamais esquecem.»


  4. … “Quando se começa a vida e a literatura”, que, no fundo, são uma coisa só, não é? 🙂

    E não sei se esta semana foi mais uma ou outra 🙂 Um abraço, Tiago.

    ** A Correspondência de Fradique Mendes, “Memórias e Notas”, II


  5. Ah, Pedro, sem dúvida, para nós a vida e a literatura são uma e a mesma coisa. Esta semana, para mim pelo menos, foram as duas em perfeita harmonia.

    Um abraço,

    tsg.



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