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Da Cidade e das Serras, parte II

29 de Julho de 2009

Não deixo o despertador tocar, a primeira noite é sempre mal dormida. São oito horas da manhã do primeiro dia do Curso Internacional de Verão promovido pela FEQ. Saio, ainda a medo, ainda em nervos, da cama. Da porta do meu quarto, este é o cenário.

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E sinto-me em casa, ou quase. Este é, também, o rio que passa na minha aldeia.

Subo à casa principal onde o pequeno-almoço me espera. Só nesta altura consigo ver claramente vistos os rostos dos meus colegas de curso. Ensonados muitos mas não todos: há-os, os que estão despertos. A esta hora, ainda são vagas e curtas, amedrontadas as palavras. Por entre a cevada e a cavaca de Resende, há tempo para um bocejo discreto e um olhar mais curioso. Eles são de muitas idades e feitios, se isto pensei, tal pensaram eles também. Alguns, já mais próximos,  conversavam com mais vontade e à-vontade. Era hora de partir para Tormes.

Mal tive tempo de observar a fachada da casa senhorial da Quinta da Vila Nova. Assim que descemos do autocarro que nos transportou da Ermida para a Fundação Eça de Queiroz, fomos conduzidos ao pequeno auditório onde já nos esperava a professora Doutora Isabel Pires de Lima, coordenadora científica e uma das três professoras encarregues dos seminários deste ano. Houve tempo, é claro, para as apresentações tradicionais. Qual aula do ensino básico, um a um, pela sala fora, saíram nomes e ocupações. Endireito-me na cadeira demasiado pequena para o meu tamanho e não sem um ligeiro tremor inicial na voz digo ser «Tiago Garcia, aluno da licenciatura em Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade do Porto» e volto a encolher-me porque à minha volta só parecia haver licenciados, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores e, de repente, um homem com metro e noventa sente-se uma criança novamente. Cada vez se torna mais claro, para mim, que não gosto de apresentações.

As duas sessões da manhã ficaram a cargo da prof. Isabel Pires de Lima. Começamos a meio-gás, digo, com uma pequena biografia do grande homem, as suas principais influências e o seu percurso bibliográfico. Pelo meio, a pausa para o café que as minhas pálpebras já desejavam, e mais meia hora em que a conversa se foi naturalizando, como Jacinto após a primeira noite em Tormes.

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Depois de almoço (do qual a única coisa que me recordo é que era acompanhado de um belo vinho de Tormes) conhecemos a professora Doutora Izabel Margato. E agora me lembro que me esqueci de referir que todo o curso se centrava sobre a modernidade em Eça de Queirós. Isto porque o seminário da professora Isabel foi dedicado à modernidade, alertando-nos para os sinais que dela deviamos procurar na obra queirosiana. Fala-se na dessacralização do poeta, na valorização do homem comum, na rua como cenário ideal e na viagem como exemplo da transformação pela modernidade. E logo me lembro de Fradique Mendes, de A Cidade e as Serras, e de Teodorico Raposo que não vai para descobrir a Palestina mas para a gozar. E assim foram os primeiros seminários.

E só no final desta tarde tive oportunidade de olhar com atenção a casa principal, sede da Fundação. Ainda agora a vejo, sem recorrer a auxiliares fotográficos, imponente, coberta de verde e granito e história e literatura. O átrio, lajeado a blocos de granito, parece pequeno e a entrada ainda mais diminuta – nesta altura ainda não me sabia enganado.

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Chegados, de novo, à Quinta da Ermida, o sol ia ainda alto. Estava ainda calor suficiente para descer à piscina da Quinta, junto ao Douro. Ninguém consegue manter a seriedade em calções e cedo o gelo inicial se derrete. Houve até oportunidade para uma pequena competição internacional de natação: alinhavam três portugueses, um brasileiro e um colombiano. Continuo sem saber quem venceu e quem saiu derrotado.

E logo, sem se dar conta, estamos de novo na sala de jantar da Quinta da Ermida e já a conversa vai solta, as gargalhadas mais sonoras, as discussões mais razoáveis e interessantes. O café, na esplanada do bar, continuou a conversa e o ambiente.

Deito-me, apesar de tudo, não muito tarde. Leio A Cidade e as Serras, apenas por um capítulo, fecho os olhos, durmo.

Diário diferido de Tormes.
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4 comentários

  1. Pronto, vá lá, eu facilito: fui mesmo eu quem perdeu a competição internacional na piscina :p

    (Apesar de ter sido a delegação do Brasil a cumprir, benemeritamente, as cinco flexões da pena)

    Um forte abraço!


  2. :))


  3. Argh, tenho estado sem net, parece-me que este fim-de-semana não vou conseguir escrever a parte III… aguentem, por favor.

    Beijo C*


  4. Eu vi logo Pedro. És uma vergonha e uma desgraça para a nação. Eh eh, brinco, brinco.

    Um abraço,

    tsg.



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