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Toda a gente critica a crítica

5 de Agosto de 2009

Toda a gente tem uma opinião sobre a crítica literária mesmo que não tenha opinião sobre literatura, e toda a gente tem uma opinião sobre crítica de música mesmo que não tenha uma opinião sobre música […]. A todos eles recomendo que leiam a crítica onde Anthony Burgess escreveu aquela pérola, «nunca leio um livro sem primeiro o criticar, para depois não dizerem que tenho preconceitos».

– Francisco José Viegas, in A Origem das Espécies

Escreveu isto o Francisco José Viegas a propósito do caso João Bonifácio. Não vou falar sobre este caso em particular, perdi a oportunidade, sobre ele já se escreveram centenas de linhas e a minha posição em nada difere da maioria delas. Aproveito só este fragmento do FJV pela sua universalidade e intemporalidade.

A opinião geral da população é: os críticos são párias da sociedade artística. Sanguessugas. Artistas falhados, raivosos, invejosos. Ampolas de veneno sem fundo. Dizem mal de todos, menos dos amigos. Como em muitas outras coisas, há verdade nesta opinião. Como tantas outras, esta generalização é errada.

É impossível, à crítica, a imparcialidade que tantas vezes se lhe pede. De todos os estudos artísticos, a crítica é o mais subjectivo e o mais sujeito a erro, o que faz com que o seu exercício seja o mais inglório. E, simultaneamente, aliciante.

Crítica não é sinónimo de opinião. Opinião é dizer: gosto deste livro, não gosto daquele. Crítica é dizer: este livro é bom, aquele é um atentado. Claro, seria ingénuo não reconhecer que a opinião tem influência na crítica, é parte da sua componente subjectiva, mas é redutor assumir que a crítica é apenas opinião.

Toda a gente está autorizada a discursar sobre a crítica, a crítica é que não pode falar sobre nada (estranho caso, impedi-la da sua função). Ninguém lhe acha importância quando é má, colam-na nas contracapas dos livros quando é laudatória. Na minha curta, curtíssima, carreira (se assim tiverem a bondade de chamar), já tive oportunidade de o comprovar. Um autor, meu conhecido, após ler uma breve nota crítica que dediquei ao seu primeiro livro, declarou que não escrevia para críticos – está bom de ver qual o conteúdo da minha resenha.

Em resumo: os críticos são criaturas vis; excepto quando falam bem dos que gostamos.

Assunto a desenvolver mais tarde.

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5 comentários

  1. .. e eu vou gostar de acompanhar esse “mais tarde” até porque acompanho com frequência, concordando ou não, o que escrevem pessoas que gosto de ler sobre o que escrevem outras que também gosto de ler.
    Nem sempre as criticas são de palmada nas costas, mas se assim fosse a credibilidade seria maior ou menor?

    Keep the good work .. já há muito que se sabe que não se agradam a gregos e troianos .. nem Helena o conseguiu 😉

    Beijo


  2. Absolutamente de acordo contigo Tiago, a crítica é antes de tudo uma avaliação do trabalho desenvolvido pelo escritor e a mesma é indubitavelmente influenciada pelo gosto pessoal do crítico, como tal, tem sempre o seu “quê” de subjectividade. Acho que o mais importante é os escritores começarem a peceber quem as faz (críticas) más, intencionalmente, e quem não funciona assim. Parece-me até bastante fácil perceber as intencões.


  3. «Malice, my dear sir, is the animating spirit of criticism; and criticism is the beginning of progress and enlightenment.»

    In «The Magic Mountain» by Thomas Mann


  4. bom post.


  5. C, isto merecia um estudo aprofundado, um ensaio cuidado, uma reflexão de fundo. Isto que aqui está não passa de um rascunho. Ainda estou a pensar se me dedico ao tema com mais seriedade. A ver vamos;

    Vick, não é apenas subjectiva pelo gosto dos escritores (um bom crítico deve ser capaz de se abstrair de opiniões pessoais) mas mais ainda pela sua própria bagagem intertextual;

    Maria Almira Soares, a malícia, realmente, pode ser o princípio de muita coisa, não apenas da crítica mas é, sem dúvida, um excelente boost, Mann sabe do que fala;

    Luís, muito obrigado, mas, como disse antes, não passa ainda de um esboço de algo que posso (ou não) explorar melhor;

    a todos muito obrigado pela visita,

    tsg.



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