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Arrastar Tinta

4 de Setembro de 2009

o luar apagado, como se diz de uma luz, apagada. Não fundida, mas apagada: onde estava acesa. Des-acesa, portanto.

– Arrastar Tinta, Pedro Eiras

No princípio dos séculos, Horácio escreve «Ut pictura poesis» e, se já não o estavam, poesia e pintura ficam condenadas a caminhar lado a lado pela eternidade. Em Arrastar Tinta, Nuno Barros e Pedro Eiras celebram a feliz união maldita das duas artes. Nuno Barros contribui com os «pintados», Pedro Eiras com os «escritos».
O livro é dividido a meio – metade para as reproduções das telas de Barros, a outra metade para o exercício escrito de Eiras – para que o leitor não caia na tentação de julgar os trabalhos plásticos como mera ilustração dos textos, ou estes como inspirados no trabalho das tintas.
Na verdade, a metade consagrada à poesia não é tanto uma ilustração da pintura como uma narração do acto de criar: «nada diz, apenas pinta. E pintar é apenas arrastar tinta» (p.33). Visão redutora, decerto. Nada nestes textos nos leva para o mundo da narração, todavia, recuperando a visão de Horácio, temos pequenos quadros pintados com palavras: «O instante: os insectos, os ímanes, a cúpula inventada no céu com os seus cometas e supernovas. Claro, muito claro» (p.50) – e ao mesmo tempo estas pinturas frásicas estão completamente afastadas do que se entende por descrição. Não é uma descrição, é o processo de desenhar, a mente do pintor no momento em que arrasta tinta pela tela. Conclui-se: pintar não é arrastar tinta, ou antes, «pintar é apenas arrastar tinta» e todo o processo neurológico que implica o movimento humano. É isso que o sujeito poético faz: expõe o automatismo não cerebral de pintar. É como um exame médico, uma TAC que, páginas atrás o pintado Sei exactamente o que faço e no entanto faço-o (pág. 10) reproduz (e cujo título é disso reflexo).
Pormenor, não menor, interessante: como é que o sujeito número um reproduz o movimento criativo do sujeito número dois? Ou como é que o sujeito número dois grafa o acto do sujeito número um? São dois os autores, dois os sujeitos. Assim nos garante a capa de Arrastar Tinta e fomos formatados para acreditar em capas. De repente, contrariando tudo o que esperávamos, pintados e escritos parecem ter exactamente a mesma origem. «Justa a retina,/ se/ justo o mundo» (p.37) mas o olho não pode ser verdadeiro se de dois autores encontramos um único sujeito. «Injusta a retina,/ se/ injusto o mundo» (idem): condição assegurada. O mundo de Arrastar Tinta foi cruel com o leitor. Ou talvez não, «tudo se move./ Questão de perspectiva» (p.41). Esta é a questão central do livro. É tudo uma «questão de perspectiva»: pintura, literatura, teatro, drama, cinema, música – perspectivas de uma mesma questão, invenções de um mesmo sujeito. «A mão é um exercício espiritual, alguns resquícios de músculo, nada mais» (p.45) e a obra, pintada ou escrita, é o resquício muscular de um exercício espiritual.
Dois autores fundem-se em um. Será? «Nunca vi o invisível./ Diz aquele que escreve sobre aquele que pinta» (p.49). Subitamente há, de novo, dois sujeitos. Um que escreve, um que pinta. Mas quem é quem? «Nunca verei o invisível, diz ele/ (quem? um de ambos)» (idem). Há novamente dois, mas dois anónimos. Um pinta, outro escreve, mas são ambos o mesmo espírito com resquícios de músculo diferente. Esta ideia é levada ao limite quando, já findo o livro, uma pequena nota revela, confidente, que há «ecos de Echart, Kleist, Freud, Carlos de Oliveira, Herberto Helder, Gastão Cruz, Manuel Gusmão, Gonçalo M. Tavares, Manuel de Freitas» (p.56) e então dois autores, que foram unos na criação espiritual, que voltaram a ser dois pela concretização muscular, tornam-se repentinamente numa multidão. Arrastar Tinta torna-se um livro escrito por todo o sistema literário, algo que é profundamente aceite e reflectido por um único sinal de pontuação: «No início, dizia eu (?), era o caos» (p.53).
No término, como no início, o caos autoral reina. Arrastar Tinta é um livro desenhado a mil mãos que reflecte, de maneira mais ou menos evidente, sobre a sua própria origem. A sua concretização em páginas é o menor dos males: afinal, como tantas vezes repetido, «pintar é apenas arrastar tinta» e tudo o resto é que verdadeiramente interessa. A origem e o espírito, nunca o músculo. A mente sobre a matéria ou, aplicando, a Arte sobre as artes. Reduzindo-me da crítica da Arte para a da arte literária, Arrastar Tinta espelha um trabalho de linguagem intenso, reflectivo e depurado. Reduzir é essencial porque o essencial é essencial, tudo o que sobra não passa de poeira. Exemplarmente bem organizado, dispostos, quase que geometricamente, os textos mais longos a partir de alguns textos breves, aprofundando sem cirandar à roda daquilo a que se propunham. Tem o condão de ser um livro e não apenas uma amálgama de poemas cosidos a telas. Tem o mérito de ser inquieto, múltiplo, des-sossegado. Tem a qualidade de ser precioso.

Publicado originalmente no Rascunho.

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3 comentários

  1. Apaixonante, deve ser apaixonante. Para mim com certeza, que amo ambas as artes (todas as artes, aliás).


  2. Vou fazer uso do “offtopic” para te responder Tiago. Dos restantes dois livros de Clarice que tenho, um é o que estou a ler agora, “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”; o outro é “A Hora da Estrela”, sobre o qual já li boas opiniões de alguns visitantes brasileiros.

    Boas leituras


  3. Laura, apaixonante sem dúvida.

    Isabel, boas escolhas. Aconselho-te também A Paixão Segundo G. H.. Imperdível.

    Cheers



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