Archive for Outubro, 2009

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em 1983 morreu uma ana

31 de Outubro de 2009

que me diz muito. A 29 de Outubro de 1983, Ana Cristina César suicida-se. Já foi há mais de 26 anos. E eu que queria tanto

Um Beijo

que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz
a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor ensurdecido
talvez embevecido
“ao sucesso”
diria meu censor
“à escuta”
diria meu amor
sempre em blue
mas era um blue
feliz
indagando só
“what’s new”
uma questão
matriz
desenhada a giz
entre um beijo
e a renúncia intuída
de outro beijo.

CÉSAR, Ana Cristina

s/d “Um Beijo” in Ana Cristina César. Inéditos e Dispersos, Armando Freitas Filho [org.], 2ª Ed., São Paulo, Editora Ática, 1999, 151-152.

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Um Poeta no Sapato

31 de Outubro de 2009

A última Quinta de Leitura foi brilhante. Fica um dos poemas que, como dito, brilhou na noite, de A. Pedro Ribeiro.

E cá está o poeta de café, só, diante da folha que já não é branca. E cá está o poeta a olhar, a ver se gajas que o entusiasmem, que o façam cavalgar. As gajas boas são as musas que lhe dão tesão, que o fazem sair da letargia. Mesmo que nunca as conheça, que nunca fale com elas, o poeta depende das gajas. São elas que se insinuam, são elas as ancas que gingam, são elas as mamas que abanam. O poeta sem as gajas não é nada. O poeta não cria, o poeta não escreve, o poeta não vibra sem as gajas. O poeta pensa no assunto e bebe. Bebe cada vez mais, fino após fino mas as gajas boas não aparecem. Só entram gajas feias e engravatados. O poeta aborrece-se e bebe. Bebe, bebe, bebe, até que rebenta.
– A culpa é vossa, gajas boas,
só aparecestes agora que o poeta está rebentado, feito em pedaços
olhai que perda para a Humanidade
olhai que se tivesses aparecido a tempo
o poeta teria escrito a obra imortal
de agora em diante ide, ide pelos campos
à procura dos poetas
ide dar-lhes de comer e de beber
a vida dos poetas está na vossa mão
e nas vossas mamas
e na vossa pássara
sede dignas dos poetas, ò gajas boas.

 

 

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Crítica às críticas

31 de Outubro de 2009

Acabei de escrever um texto crítico ao livro de Miguel-Manso, Contra a Manhã Burra, que teve de ser assustadoramente castrado pelo maldito limite de caracteres. Estou revoltado.

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apresentação de se fosse um intervalo, de ana luísa amaral

30 de Outubro de 2009

Na quarta-feira passada, num auditório gigante e cheio, foi assim.

Estas fotos estão, em tamanho maior, no meu flickr.

(E agora quem é que me vai oferecer este livro?)

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Quasi falência

20 de Outubro de 2009

Uma das piores notícias dos últimos dias: as Quasi estão em processo de falência. Como disse o José Mário Silva, tinham uma excelente colecção de poesia brasileira (ele esqueceu-se, espero eu, de falar da Ana Cristina César), uma boa colecção de Ensaios (Fernando Guimarães, Pedro Eiras) mas, acima de tudo, não tinham medo de apostar em novos autores. Foram as Quasi que me mostraram, por exemplo, o Vasco Gato (que, todavia, publicou um livro na Assírio), o Jorge Melícias, o Tiago Araújo, o Rui Lage, o Nuno Rocha Morais. Editaram a obra completa do Daniel Faria, e isso desculpa todos os erros. Nestes tempos certamente difíceis, deixo um abraço ao Jorge Reis-Sá.

Via Bibliotecário de Babel e Blogtailors.

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Não sabia que a Poetria tinha blog

19 de Outubro de 2009

Mas tem, aqui. E também tem twitter, aqui. É visitar, seguir e comprar (na Poetria, claro).

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Reading Ulysses

15 de Outubro de 2009

The Oxen of the Sun: Um dos mais difíceis capítulos que alguma vez li. Em resumo: one bad-ass chapter.

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Reading Ulysses [on pause]

8 de Outubro de 2009

Hoje não li Ulysses. O pouco tempo que tive livre, estive a trabalhar sobre Sylvia Plath. Amanhã há mais.

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Herta Müller

8 de Outubro de 2009

Não me venham com coisas: desta ninguém estava à espera.

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Reading Ulysses

8 de Outubro de 2009

Curioso: Gerty MacDowell olhava para Bloom e via nele o esposo perfeito – que Bloom não é –  para o casamento perfeito – que Bloom não tem; por outro lado, Bloom, qual Ulisses, olhava para Gerty, qual Nausicaa, e não via pureza, virtude, virgindade, mas sim desejo e luxúria – masturbava-se.

(E o relógio que parou na hora em que Molly traiu Bloom?)

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Reading Ulysses

7 de Outubro de 2009

A partir das 23h, a noite é sempre Joyceana.

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Reading Ulysses

7 de Outubro de 2009

No capítulo ligado a Polifemo, o ambiente do bar é nacionalista, ferverosamente fenício, violentamente xenófobo, racista e homofóbico. Bloom não é fenício (embora, questionado, se diga Irlandês), é judeu, de descendência húngara e, além disto, apresenta traços de androginia comportamental. Óptimas razões para se criar um ambiente hostil a Bloom (ele, aliás, sai assim que começa a sentir-se ameaçado). Razões que não são mais que desculpas. Sabe-se perfeitamente porque é que odeiam Bloom:

The chaste spouse of Leopold is she: Marion of the bountiful bosoms.

JOYCE, James
1922 Ulysses; ed. ut.: [s/d], London, Penguin, 2000 [reimpressão], 414.
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Reading Ulysses

6 de Outubro de 2009

Deaf, bothered. But perhaps he has a wife and family waiting, waiting Patty come home. Hee hee hee hee. Deaf wait while they wait.

[…]

By deaf Pat in the doorway, straining ear, Bloom passed.

JOYCE, James
1922 Ulysses; ed. ut.: [s/d], London, Penguin, 2000 [reimpressão], 365-370.

Preconceito: Ulysses é Bloom. Facto: Pat, o empregado da sala de concertos é, afinal, aquele que é surdo ao canto das sereias. O que quer isto dizer? Bloom deixou-se seduzir. Bloom, Henry Flower, deixou-se seduzir, Martha Clifford‘s to blame. Outra hipótese: Bloom deixou-se seduzir: Dedalus et alli to blame. Terceira hipótese: Bloom é superior a Ulysses – ouviu o canto das sereias e não se tentou. Quinta hipótese: Bloom amarrou-se a Pat, the waiter, waiting while he waits, como símbolo de virtude (afinal Pat, o empregado surdo, deve ter em casa uma família também waiting while he waits). Hipótese quinta: hipóteses infinitas. Sensata, sexta e final hipótese: esquecer Bloom, deixar-se levar no suave ritmo do inglês com Irish accent.

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Correcção

6 de Outubro de 2009

Apenas uma nota a este post do Senhor Palomar: não faço lobby por Roth. A criar pressão por algum dos nobilizáveis seria, certamente, por Pynchon, que me é mais familiar. A minha aposta é somente racional. Roth é muito mais consensual do que Pynchon. Que o digam o Hélder Beja e o Pedro Vieira, o Rogério Casanova e eu próprio.

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Está quase na hora do Nobel

5 de Outubro de 2009

E eu aposto que vai ser o ano em que a academia se vai virar para os EUA. Provavelmente Roth.

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Reading Ulysses

3 de Outubro de 2009

One born every second somewhere. Other dying every second. Since I fed the birds five minutes. Three hundred kicked the bucket. Other three hundred born, washing the blood off, all are washed in the blood of the lamb, bawling maaaaaa.

JOYCE, James
1922 Ulysses; ed. ut.: [s/d], London, Penguin, 2000 [reimpressão], 208.
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Reading Ulysses (ou os livros que perturbam o sono)

3 de Outubro de 2009

Ontem sonhei que adoptava um gato a que chamava James Joyce. Hoje, discutia com alguém a necessidade de uma standardização Joyceana.

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Ainda não acredito

2 de Outubro de 2009

que acabei de comprar as obras completas de Shakspeare por 12 – leram bem, doze – euros.

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Ainda pensei que fosse um erro de marcação. Mas não. Está aqui o mesmo preço, on-line.

Adenda: também comprei as novas tradução de Crime e Castigo, de Dostoievsky, publicada pela Relógio D’Água, e de Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, publicada pela Antígona (numa belíssima edição) – ambos a um preço, digamos, normal (que é como quem diz demasiado caro para a minha bolsa).

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Oferta de emprego

2 de Outubro de 2009

Que vontade terrível de me candidatar a isto.

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reading Ulysses

1 de Outubro de 2009

*Os funerais divertem Bloom: imagina o caixão a saltar da carruagem e a cuspir o corpo do morto para o paralelo; imagina um enterro de um corpo ainda vivo a morrer asfixiado no caixão; imagina o espaço que se pouparia se se enterrassem os corpos na vertical, ponderando, no entanto, o horror de algum deles decidir espreitar para fora da terra. Repenso: divertem não é o termo exacto. Ou melhor, divertem as in despertam-lhe a curiosidade. Homem curioso, este Bloom. Questiona-se quem é o sujeito de Mackintosh. Questiona-se, repentinamente, como seria se todos trocassem de corpos. E educado? Como explicar a impenetrabilidade da sua feição quando alguém condena o suicídio perto dele: “His father poisoned himself, Martin Cunningham whispered” (pág. 127). Conclusão: é preciso enterrar os mortos. Crusoe tinha razão. Afinal todos os Sextas-Feiras enterram as Quintas-feiras.

JOYCE, James
1922 Ulysses; ed. ut.: [s/d], London, Penguin, 2000 [reimpressão], 139.

*Leitura Luís Mourão (ambos – a leitura e o Luís Mourão – bastante admirados).