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«a rose / By any other name» #2

13 de Fevereiro de 2010

Tenho de pensar nisso. Talvez tenha de ler outros livros.
– Como assim? Para saber o que diz um livro tendes de ler outros?
– Por vezes pode fazer-se assim. Muitas vezes os livros falam de outros livros. Muitas vezes um livro inócuo é como uma semente, que florescerá num livro perigoso, ou inversamente, é o fruto doce de uma raiz amarga. Não poderias, lendo Alberto, saber o que poderia ter dito Tomás? Ou, lendo Tomás, saber o que terá dito Averroes?
– É verdade – disse admirado. Até então tinha pensado que cada livro falava das coisas, humanas ou divinas, que estão fora dos livros. Agora apercebia-me que, não raro, os livros falam dos livros, ou melhor, é como se falassem entre si. À luz desta reflexão, a biblioteca pareceu-me ainda mais inquietante. Era portanto o lugar de um longo e secular sussurro, de um diálogo imperceptível entre pergaminhos e pergaminhos, uma coisa viva, um receptáculo de poderes que uma mente humana não podia dominar, tesouro de segredos emanados de tantas mentes, e sobrevivendo à morte daqueles que os tinham produzido ou deles se tinham feito mensageiros. (p. 269)

ECO, Umberto
1980, Il nome della rosa; ed. ut.: O Nome da Rosa, Lisboa, Público, 2002.

O mistério da intertextualidade. Para o experiente Guilherme, é um dado adquirido, algo de não questionável e quase indigno de reflexão. A intertextualidade de Guilherme é um meio para chegar a uma conclusão. Pelo contrário, para o jovem e inexperiente Adso, o diálogo intertextual apresenta-se como uma espécie de dom mágico que transforma a biblioteca [do mosteiro] num lugar ainda mais mágico e medonho. É o medo do desconhecido e o fascínio que, ao mesmo tempo, se lhe costuma fundir. É, de facto, uma imagem tão bela quanto aterradora que o produto do homem lhe sobreviva, e seja motor de um diálogo activo muito depois da morte do seu criador. O diálogo intertextual é uma forma de imortalidade, para Adso. Para Guilherme é uma fonte de sabedoria. Ambos estão certos. Posso, certamente, encontrar uma dúzia de livros capaz de suportar cada uma das diferentes visões.

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