Archive for Março, 2010

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Da crítica

22 de Março de 2010

Partilho muitas das palavras de José Bértolo sobre o crítico contemporâneo. Para ler (criticamente, está claro).

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Dia de Poesia

21 de Março de 2010

Emprego e desemprego do poeta

Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

BELO, Ruy
1961 «Emprego e desemprego do poeta» in Aquele Grande Rio Eufrates; ed. ut.: in Todos os Poemas, vol. I, 2ªed., Lisboa, Assírio & Alvim, 2004, 29.
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Caros diseurs, declamadores, dizedores, etc.

21 de Março de 2010

lamento, mas para mim, o poema só se cumpre na solidão. O que é um martírio, que gosto bastante de dizer e ouvir dizer poesia.

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No dia mundial da poesia

21 de Março de 2010

em que tenho muito (muito muito muito) trabalho à minha espera, o melhor que posso fazer é pegar no Ruy Belo e na Canon e ir aproveitar o dia. Volto daqui a umas horas.

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A Single Man

21 de Março de 2010

a single man

George, o homem invisível.
Quando fala aos seus alunos, George assume que as minorias são tão mais temidas — e por isso mais perseguidas — quanto mais invisíveis. Referência clara à minoria homossexual. Ou talvez não. George é o homem invisível que não consegue deixar de ser notado. De manhã, quando observa os seus vizinhos pela janela da casa de banho, George é visto pela vizinha que o saúda; quando caminha pelo campus, George atravessa uma multidão de estudantes que caminha em direcção contrária, mas nunca choca com ninguém — os estudantes abrem-lhe alas; quando se senta, sozinho, num sofá do banco para procurar o livro de cheques, uma criança vem ter com ele. Atropelam-se os momentos em que o homem invisível é visto. Ele próprio o admite, nos minutos finais do filme: eu sou exactamente aquilo que aparento ser, desde que se olhe com atenção.

George, o homem que não consegue controlar o tempo.
George vive rodeado de relógios. Ao longo do dia em que o acompanhamos, quase permanentemente ouvimos em pano de fundo o tiquetaque. Planeou o dia ao pormenor, e mesmo assim George vê-se à espera do tempo — para sair de casa, para dar uma aula, para jantar. Isto significa uma de duas coisas: George tem o controlo absoluto do tempo ou George não tem qualquer controlo sobre o tempo. Escolho talvez esta última hipótese — quando lhe perguntam as horas, George não é capaz de responder porque o seu relógio de pulso parou.

George, o homem que vive em cores diferentes.
O controlo de imagem é subtil mas perceptível: quando George está sozinho, as cores são frias e melancólicas, quase preto e branco, quase sépia; quando uma analepse surge ou quando há uma interacção entre George e outro ser (não necessariamente humano), sente-se o calor do technicolor da década de 60.

George, o homem com o coração ao contrário.
Nada neste filme é por acaso. Então, deixo a pergunta: porque é que a dor que antecede o ataque cardíaco de George é no braço direito e não no esquerdo?

A Single Man, um filme quase perfeito. Banda sonora magistral. Fotografia sublime. Interpretações arrebatadoras. Realização brilhante. Os detractores desta película apontam-lhe, regra geral, o defeito de ser «artística». Como se chamar arte ao cinema fosse um insulto.

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Simão de Cirene #5

12 de Março de 2010

Ninguém pode saber quem é se não souber de onde veio. Um nome não é nada e é tudo: é o princípio, a primeira palavra e a memória que sobra quando se desaparece. Há quinhentos anos viveu João Nunes. Dele, tudo o que sei é o nome. Basta.

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Simão de Cirene #4

11 de Março de 2010

Miss Graham was delighted with Corinthians’ dress and slightly uppity manners. It gave her house the foreign air she liked to affect, for she was the core, the very heartbeat, of the city’s literary world. […] In the world Michael-Mary Graham inhabited, her mild liberalism, a residue of her Bohemian youth, and her posture of sensitive lady poet passed for anarchy. (p. 190)

MORRISON, Toni
1977 Song of Solomon; ed. ut.: New York, Vintage, 2004.

Seria fácil pegar no liberalismo afectado dos poetas, «centros literários da cidade», aqui representados na poeta Michael-Mary Graham, e dele extrair conclusões satíricas. Mas, convenhamos, se todos os males do mundo artístico se resumissem à afectação e à phoniness (recorro a uma expressão Caufieldiana) de homens e mulheres como esta, não viria daí grande mal. Um dos males é que esta corja costuma excluir tudo o que não se coadunar na sua anarquia conservadora — e esses, formam uma outra corja de gente que exclui todos os que não se colocarem imediatamente contra todo o establishment, quer se trate de uma recusa racional, motivada, ou de alguém revestido da aura romântica dos malditos. Na literatura, como em tudo o resto. Entre uns e outros, não sei quem escolher. Ou se escolher. É claro que com esta atitude me juntaria a um terceiro grupo formado por aqueles que, em conjunto, se julgam as ilhas solitárias da razão. Preso por ter cão, preso por não ter, preso por pensar em cães.