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À sombra de Quintais #1 e O problema de ser Leal #3

3 de Março de 2010

Ginjal (com Sandra contemplando Lisboa)

Se uma cidade deslizasse pelas águas
nós não saberíamos classificá-la: uma cidade lacustre,
uma cidade movente, uma cidade folha de papel
circulando indecisa e lenta sobre a superfície
líquida de um rio?
Mas daqui, desta distância, o que avistamos
senão o rio que invade as ruas,
todas as ruas de igual modo invadidas pelo seu caudal.
O que avistamos senão o mero exercício retórico de ver,
de olhar sobre a interposta cidade:
uma Lisboa milagrosamente veneziana,
imaginariamente veneziana,
e nós aqui sentados contemplando,
procurando um consenso mínimo,
não sobre respostas que não temos,
mas sobre abundantes perifrásticas interrogações.

QUINTAIS, Luís
1999 «Ginjal (com Sandra contemplando Lisboa)» in Umbria, Guimarães, p. 43.

A cidade líquida

A cidade movia-se como um barco. Não. Talvez o chão se abrisse em algum lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água. Como sobreviver a uma cidade líquida?

(Eu tentava sustentar-me como um barco.)

As aves molhavam-se contra as torres. Tudo evaporava: os sinos, os relógios, os gatos, o solo. Apodreciam os cabelos, o olhar. Havia peixes imóveis na soleira das portas. Sólidos mastros que seguravam as paredes das coisas. Os marinheiros invadiam as tabernas. Riam alto do alto dos navios. Rompiam a entrada dos lugares. As pessoas pescavam dentro de casa. Dormiam em plataformas finíssimas, como jangadas. A náusea e o frio arroxeavam-lhes os lábios. Não viam. Amavam depressa ao entardecer. Era o medo da morte. A cidade parecia de cristal. Movia-se com as marés. Era um espelho de outras cidades costeiras. Quando se aproximava, inundava os edifícios, as ruas. Acrescentava-se ao mundo. Naufragava-o. Os habitantes que a viam aproximar-se ficavam perplexos a olhá-la, a olhar-se. Morriam de vaidade e de falta de ar. Os que eram arrastados agarravam-se ao que restava do interior das casas. Sentiam-se culpados. Temiam o castigo. Tantas vezes desejaram soltar as cordas da cidade. Agora partiam com ela dentro de uma cidade líquida.

(Eu ficara exactamente no lugar de onde saiu.)

LEAL, Filipa
«A cidade líquida» in A Cidade Líquida e Outras Texturas, Porto, Deriva, 2006, p.9.
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