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A Single Man

21 de Março de 2010

a single man

George, o homem invisível.
Quando fala aos seus alunos, George assume que as minorias são tão mais temidas — e por isso mais perseguidas — quanto mais invisíveis. Referência clara à minoria homossexual. Ou talvez não. George é o homem invisível que não consegue deixar de ser notado. De manhã, quando observa os seus vizinhos pela janela da casa de banho, George é visto pela vizinha que o saúda; quando caminha pelo campus, George atravessa uma multidão de estudantes que caminha em direcção contrária, mas nunca choca com ninguém — os estudantes abrem-lhe alas; quando se senta, sozinho, num sofá do banco para procurar o livro de cheques, uma criança vem ter com ele. Atropelam-se os momentos em que o homem invisível é visto. Ele próprio o admite, nos minutos finais do filme: eu sou exactamente aquilo que aparento ser, desde que se olhe com atenção.

George, o homem que não consegue controlar o tempo.
George vive rodeado de relógios. Ao longo do dia em que o acompanhamos, quase permanentemente ouvimos em pano de fundo o tiquetaque. Planeou o dia ao pormenor, e mesmo assim George vê-se à espera do tempo — para sair de casa, para dar uma aula, para jantar. Isto significa uma de duas coisas: George tem o controlo absoluto do tempo ou George não tem qualquer controlo sobre o tempo. Escolho talvez esta última hipótese — quando lhe perguntam as horas, George não é capaz de responder porque o seu relógio de pulso parou.

George, o homem que vive em cores diferentes.
O controlo de imagem é subtil mas perceptível: quando George está sozinho, as cores são frias e melancólicas, quase preto e branco, quase sépia; quando uma analepse surge ou quando há uma interacção entre George e outro ser (não necessariamente humano), sente-se o calor do technicolor da década de 60.

George, o homem com o coração ao contrário.
Nada neste filme é por acaso. Então, deixo a pergunta: porque é que a dor que antecede o ataque cardíaco de George é no braço direito e não no esquerdo?

A Single Man, um filme quase perfeito. Banda sonora magistral. Fotografia sublime. Interpretações arrebatadoras. Realização brilhante. Os detractores desta película apontam-lhe, regra geral, o defeito de ser «artística». Como se chamar arte ao cinema fosse um insulto.

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3 comentários

  1. não sei se o lado esquerdo do cérebro controla o “científico-racional” e o lado direito o “artístico-emocional” e também não sei se o lado esquerdo do cérebro controla a parte direita do corpo e o lado direito a parte esquerda, mas sei que é difícil quando se tenta viver segundo uma série de regras, aparentemente [e/ou que aspiram a ser] lógicas e racionais («concebo um suicídio racional»), e a vida (ou o amor ou o acaso ou) acontece. acho que naquele momento o que morreu foi a lógica segundo a qual ele se regia (lado esquerdo do cérebro, braço direito), tanto que desistiu de se matar. big mistake. sobrou a arte e o sentimento.


  2. É uma leitura interessante. De uma coisa temos a certeza: o George dos óculos e da gravata acabou. Se o ataque cardíaco não fosse suficiente, o beijo (simétrico ao inicial, sonhado por George) marca a morte.

    Abraço,
    tsg.


  3. exactamente, o beijo. o sonho. o que seja.



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