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Antígona, TNSJ

18 de Abril de 2010

Saí da sala decepcionado. Então, o que achaste da Antígona[personagem]? Não foi brilhante. Disse ‘não foi brilhante’ como quem diz não gostei — eufemismo. Mas, horas passadas, a Antígona cresceu em mim: agora a resposta seria a mesma, mas como quem diz que não foi absolutamente perfeita — e essa ligeira imperfeição é que me agradou. É preciso saber que Antígona não é uma heroína, como Creonte não é um tirano; estando em lados opostos, nenhum dos dois está do lado certo (o que é o lado certo?). Uma Antígona perfeita lutaria com os pulmões na garganta para enterrar o seu irmão. A Antígona que Nuno Carinhas construiu em Maria do Céu Ribeiro encarna uma revolta submissa: a força que a leitura imediata esperaria encontrar é substituída por uma certa inquietação em cada palavra. Esperava força em Antígona, encontrei conflito — desobedecer a uma ordem dos homens para obedecer a uma ordem dos deuses não é exactamente revolução. Ainda bem que a Antígona não foi brilhante; gosto mais dela assim.

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9 comentários

  1. Caro Tiago, também não achei o espectáculo brilhante, talvez eu seja mais crítico quanto à escolha da actriz; pergunto-lhe, cresceu dentro de si a Antígona que nada pode contra o seu destino – que é, de resto, voluntário, não fosse uma tragédia – ou a actriz que interpretou Antígona como um ser asfixiado? Em qualquer resposta, o lado certo é sempre o nosso pois no final é sempre este que nos sobra. Aproveito para o felicitar pelo blog, que vou seguindo sempre que posso. Abraço


  2. Caro Francisco,

    Em primeiro lugar, muito obrigado pela visita e pelo comentário. Volte, será sempre um prazer tê-lo por cá.

    Quanto à questão que me deixou: cresceu a interpretação asfixiada — asfixiada porque não heróica, não gritante, como estava à espera de encontrar; não tanto a asfixia da morte a que a personagem é condenada — precisamente pela imperfeição que mostra: uma luta sem força, sem fôlego, quase sem vontade — enfim, uma obrigação. Falhou a apoteótica Antígona, mas surgiu uma Antígona mais pequena, talvez mais humana. Mas enfim, tudo isto que digo, digo de memória. É a tragédia das tragédias: é impossível reviver. Admito que, se voltasse a assistir a esta encenação, provavelmente a minha opinião alterar-se-ia: ou confirmando-se, ou invertendo-se.

    De novo, muito obrigado pelas palavras simpáticas que deixou ao meu blog (que, diga-se claramente, nunca é mais do que um borrão ou, no máximo, um rascunho/caderno de notas).

    Um abraço,
    tsg.


  3. Caro Tiago, eu é que agradeço as amáveis palavras e, sobretudo, esse apelo à imperfeição em que também eu acredito. Deixo-lhe um pequeno “desafio”, suscitado pela leitura de uma das entradas deste espaço: nos tempos que correm, com tantas polémicas inúteis, consegue estabelecer a distância/limite/diferença entre a actividade do crítico (o que quer que ela possa ser) e a do “opinion maker”? Um forte abraço e a continuação do bom trabalho!


  4. Viva Francisco,

    Acho que a resposta ao seu desafio passa muito por aquilo que actividade do crítico é. Quero dizer, se o crítico é aquele que deixa uma nota nos jornais diários e na imprensa generalista, não vejo grande diferença entre o crítico e o “opinion maker”: se houvesse esse esforço de distânciamento, aquele sistema das estrelas, quase universal, seria absurdo. As estrelas fazem exactamente isso, dizem ao leitor “este livro é bom, este livro não é”. Por outro lado, a crítica que eu procuro — e também aquela que eu procuro fazer, de uma forma ainda em estado juvenil, digamos assim — não é aquela que pretende formar uma opinião ou proferir um juízo de valor sobre determinada obra; a crítica que procuro abre portas perante o texto, em vez de as fechar, dá novos horizontes e novas possibilidades de leitura, estabelece pontes com outras obras e comenta as opções estéticas tomadas. Agora, definir a distância entre um e outro será talvez uma tarefa mais difícil, mais que não seja porque a própria escolha da obra é já um acto selectivo que forma uma opinião de imediato. Numa palavra, suponho que qualquer acto de comunicação tem a potencial de se tornar em opinion maker, ficando do lado do receptor definir em que grau será a sua visão afectada pela dos outros, quer o faça de forma consciente ou inconsciente.

    Já agora, qual das entradas?

    Continue a dizer coisas, é sempre estimulante esta troca de ideias!

    Um forte abraço,
    Tiago


  5. Caro Tiago

    A entrada diz respeito à inútil polémica quanto a “um toldo vermelho”. Fez-me pensar uma vez mais em várias questões- onde encontrar verdadeiramente crítica na actualidade? Haverá verdadeira crítica e falsa crítica? Como se distingue crítica de ensaio e de comentário “au gôut”? O que pode um crítico afirmar senão a sua imensa ingenuidade? Há uma deontologia da crítica, como há do jornalismo? Mais do que polémicas perfeitamente estéreis, julgo que tópicos como este, longe de parecerem banais, merecem reflexões mais aprofundadas. Fica aqui o desafio, certamente que escreverá um bom texto sobre estes “desconfortos”.
    um fortíssimo abraço


  6. Caro Francisco,

    Polémica inútil indeed. E, de facto, as opiniões tão díspares que ouvimos por aí levantam imensas questões sobre o papel da crítica. Lembro apenas David Hume, no seminal «Of the standard of taste», quando defendia que uma das características essenciais daquele capaz de definir o padrão do gosto seria a ausência de preconceito. Toda essa polémica faz-me pensar que Hume anda esquecido na crítica nacional — pelo menos naquela de voz mais audível. Todavia vou-me escusar ao seu desafio, pelo menos para já, porque todas essas questões que levanta exigem uma reflexão e um estudo bastante aprofundados. E espero que me perdoe a maldade de lhe reenviar o desafio — um estudo do Francisco sobre estes problemas será bastante mais interessante do que qualquer comentário superficial que eu posso fazer.

    (vou chamar a atenção dos leitores para esta nossa conversa, espero que não se importe. julgo que é algo que possa ser do interesse de todos.)

    Um abraço,
    Tiago.


  7. […] 16 16UTC Maio 16UTC 2010 Tenho estado à conversa com Francisco Saraiva Fino nos comentários deste post sobre o papel da crítica. Passem por lá, […]


  8. Caro Tiago

    Não levo a mal a maldade, de modo algum; no entanto, penso que o Tiago estará muito mais habilitado do que eu (por diversas razões) para escrever um ou vários textos sobre este assunto. Como afirmei, talvez estas questões sejam verdadeiramente importantes. Deixei-lhe no meu blog (www.lusios.blogspot.com) uma primeira premissa para o seu trabalho. Em breve, postarei outras. É possível que deste intercâmbio (talvez inédito) sejam possíveis resultados (artisticamente) interessantes. Um abraço e bom trabalho!


  9. Viva Francisco,

    Bem, agora não tenho por onde fugir, não é? Eheh, muito bem, vamos lá a isso. Perdoe-me a demora na resposta, estive (estou) em dias lotados de trabalho. Já vi com atenção os dois primeiros textos que postou, e já vi que hoje colocou outro mas ainda não o li com atenção. Obrigado pelo desafio! Assim que tiver algum tempo livre, começo as respostas 🙂

    Um grande abraço,
    tsg.



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