Posts Tagged ‘Citações’

h1

29.10.1983

29 de Outubro de 2010

I
Enquanto leio meus seios estão a descoberto. É difícil concentrar-me ao ver seus bicos. Então rabisco as folhas deste álbum. Poética quebrada pelo meio.

II
Enquanto leio meus textos se fazem descobertos. É difícil escondê-los no meio dessas letras. Então me nutro das tetas dos poetas pensados no meu seio.

César, Ana Cristina
s/d Enquanto leio; ed. ut.: in Um beijo que Tivesse um Blue, ed. Joana Matos Frias, Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2005, p. 42.

h1

27.10.1932

27 de Outubro de 2010

A birthday present

What is this, behind this veil, is it ugly, is it beautiful?
It is shimmering, has it breasts, has it edges?

I am sure it is unique, I am sure it is just what I want.
When I am quiet at my cooking I feel it looking, I feel it thinking

‘Is this the one I am to appear for
Is this the elect one, the one with black eye-pits and a scar?

Measuring the flour, cutting off the surplus,
Adhering to rules, to rules, to rules.

Is this the one for the annunciation?
My god, what a laugh!’

But it shimmers, it does not stop, and I think it wants me.
I would no mind if it was bones, or a pearl button.

I do not want much of a present, anyway, this year.
After all I am alive only by accident.

I would have killed myself gladly that time any possible way.
Now there are these veils, shimmering like curtains,

The diaphanous satins of a January window
White as babies’ bedding and glittering with dead breath. O ivory!

It must be a tusk there, a ghost-column.
Can you not see I do not mind what it is.

Can you not give it to me?
Do not be ashamed — I do not mind if it is small.

Do not be mean, I am ready for enormity.
Let us sit down to it, one on either side, admiring the gleam,

The glaze, the mirrory variety of it.
Let us eat our last supper at it, like a hospital plate.

I know why you will not give it to me,
You are terrified

The world will go up in a shriek, and your head with it,
Bossed, brazen, an antique shield,

A marvel to your great-grandchildren.
Do not be afraid, it is not so.

I will only take it and go aside quietly.
You will not even hear me opening it, no paper crackle,

No falling ribbons, no scream at the end.
I do not think you credit me with this discretion.

If only you knew how the veils were killing my days.
To you they are only transparencies, clear air.

But my god, the clouds are like cotton.
Armies of them. They are carbon monoxide.

Sweetly, sweetly I breath in,
Filling my veins with invisibles, with the million

Probable motes that tick the years off my life.
You are silver-suited for the occasion. O adding machine —

Is it impossible for you to let something go and have it go whole?
Must you stamp each piece in purple,

Must you kill what you can?
There is this one thing I want today, and only you can give it to me.

It stands at my window, big as the sky.
It breathes from my sheets, the cold dead center

Where spilt lives congeal and stiffen to history.
Let it not come by the mail, finger by finger.

Let it not come by word of mouth, I should be sixty.
By the time the whole of it was delivered, and too numb to use it.

Only let down the veil, the veil, the veil.
If it were death

I would admire the deep gravity of it, its timeless eyes.
I would know you were serious.

There would be a nobility then, there would be a birthday.
And the knife not carve, but enter

Pure and clean as the cry of a baby,
And the universe slide from my side.

Plath, Sylvia
1962 «A birthday present»; ed. ut.: in Complete Poems, New York, HarpperCollins, 206-208.

h1

Sylvia, II

11 de Setembro de 2010


Le Muse inquietanti (1916), Giorgio de Chirico

The Disquieting Muses

Mother, mother, what illbred aunt
Or what disfigured and unsightly
Cousin did you so unwisely keep
Unasked to my christening, that she
Sent these ladies in her stead
With heads like darning-eggs to nod
And nod and nod at foot and head
And at the left side of my crib?

Mother, who made to order stories
Of Mixie Blackshort the heroic bear,
Mother, whose witches always, always
Got baked into gingerbread, I wonder
Whether you saw them, whether you said
Words to rid me of those three ladies
Nodding by night around my bed,
Mouthless, eyeless, with stitched bald head.

In the hurricane, when father’s twelve
Study windows bellied in
Like bubbles about to break, you fed
My brother and me cookies and Ovaltine
And helped the two of us to choir:
‘Thor is angry: boom boom boom!
Thor is angry: we don’t care!’
But those ladies broke the panes.

When on tiptoe the schoolgirls danced,
Blinking flashlights like fireflies
And singing the glowworm song, I could
Not lift a foot in the twinkle-dress
But, heavy-footed, stood aside
In the shadow cast by my dismal-headed
Godmothers, and you cried and cried:
And the shadow stretched, the lights went out.

Mother, you sent me to piano lessons
And praised my arabesques and trills
Although each other found my touch
Oddly wooden in spite of scales
And the hours of practicing, my ear
Tone-deaf and yes, unteachable.
I learned, I learned, I learned elsewhere,
From muses unhired by you, dear mother.

I woke one day to see you, mother,
Floating above me in bluest air
On a green balloon bright with a million
Flowers and bluebirds that never were
Never, never, found anywhere.
But the little planet bobbed away
Like a soap-bubble as you called: Come here!
And I faced my traveling companions.

Day now, night now, at head, side, feet,
They stand their vigil in gowns of stone,
Faces blank as the day I was born,
Their shadows long in the setting sun
That never brightens or goes down.
And this kingdom you bore me to,
Mother, mother. But no frown of mine
Will betray the company I keep.

Plath, Sylvia
1957 «The disquieting muses»; ed. ut.: in Complete Poems, New York, HarpperCollins, 75-76.

h1

O homem morreu, a obra não.

20 de Junho de 2010

Além do seu nome próprio de José, o Sr. José também tem apelidos, dos mais correntes, sem extravagâncias onomásticas, um do lado do pai, outro do lado da mãe, segundo o normal, legitimamente transmitidos, como poderíamos comprovar no registo de nascimento existente na Conservatória se a substância do caso justificasse o interesse e se o resultado da averiguação pagasse o trabalho de confirmar o que já se sabe. No entanto, por algum desconhecido motivo, se é que não decorre simplesmente da insignificância da personagem, quando ao Sr. José se lhe pergunta como se chama, ou quando as circunstâncias lhe exigem que se apresente, Sou Fulano de Tal, nunca lhe serviu de nada pronunciar o nome completo, uma vez que os interlocutores só retêm na memória a primeira palavra dele, José, a que depois virão a acrescentar, ou não, dependendo do grau de confiança ou de cerimónia, a cortesia ou a familiaridade do tratamento.

SARAMAGO, José
1997 Todos os Nomes; ed. ut.: Lisboa, Planeta de Agostini, 2000, p.19.

Adeus Sr. José. Sinto já a tua falta.

h1

122 anos de Poeta

13 de Junho de 2010

Em mim todas as afeições se passam à superfície, mas sinceramente. Tenho sido actor sempre, e a valer. Sempre que amei, fingi que amei, e para mim mesmo o finjo.

Pessoa, Fernando / Soares, Bernardo
2006 Livro do Desassossego, ed. Richard Zenith [Obra Essencial de Fernando Pessoa], p. 233.
h1

Sinais de Fogo #11

19 de Maio de 2010

Sinais de fogo, os homens se despedem,
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, p. 462.
h1

Sinais de Fogo #10

19 de Maio de 2010

Mas, entre mim e a inocência de estar com os outros, haveria, daí em diante, não um muro de palavras sentimentais e consoladoras como da poesia de que eu não gostava, mas um vácuo frígido, feito da eventualidade de elas criarem um sentido e uma relação em tudo, se eu deixasse que elas aparecessem. Era como se uma última virgindade que só alguns por acaso perdem me tivesse sido tirada, e eu ficasse isolado, contraditoriamente e irremediavelmente, sujo de essencial pureza, de tudo e de todos.

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, p. 519.
h1

Sinais de Fogo #9

16 de Maio de 2010

Brandamente, [o Rodrigues] empurrou-me um pouco pelo corredor adiante, e agachou-se diante de mim. Fechando os olhos, senti-me coberto de suor frio. Ouvi-lhe a voz: — Com que então foi com isto que a fizeste tua? — Não respondi, e ainda que quisesse não poderia. Esperei. Não aconteceu nada. E foi com alívio que ouvi a voz dele junto da minha cara, e abri os olhos: — Tens isso sujo de merda. Lava-te primeiro.

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, p. 429.
h1

Sinais de Fogo #5

10 de Maio de 2010

E, mesmo que soubesse, eu podia sabê-lo, como de tudo, de três maneiras: por me contarem, por eu ter assistido, ou por eu ter participado. Quando não tivesse participado em alguma coisa, mas ouvido ou visto, o que me dissessem, ou o que fizessem diante de mim, seria exactamente a verdade?

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, 2003, p. 235-236.

A subjectividade do real é aqui perfeitamente problematizada por Jorge: se não fiz, como posso acreditar naquilo que vi ou ouvi? Os sentidos enganam. Falta-lhe ainda perceber que o real também foge àquilo que se faz: exemplo disso é a orgia de uma das noites anteriores que é sempre recordada como se tivesse sido vivida por outro, esfumada e irreal. O que é o real?

h1

Sinais de Fogo #4

9 de Maio de 2010

E, de repente, senti que, para além da identidade em que todos se diferençavam uns dos outros, uma coisa estava acontecendo, acontecera naqueles poucos dias, na acumulação de coisas que haviam desabado sobre mim: tudo desabava numa desordem sem fronteiras nítidas e passava a ter o valor que cada um lhe desse. Isto, porém, era ainda um segredo de cada um.

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, 2003, p. 189.

Novo sinal de amadurecimento intelectual de Jorge: percebe, finalmente, que não há fronteiras no mundo, que não há «incólumes» e «marcados», mas que cada um é a sua própria desordem.

h1

Sinais de Fogo #3

9 de Maio de 2010

Nunca sentira, nem mesmo nos momentos de maior satisfação, nada de semelhante à sensação de total domínio, que fora a minha ao possuí-la. E tinha sido, ao senti-la estremecer e gemer comigo, como se a virgindade dela se tivesse refeito, precisamente quando e porque eu a possuía.

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, 2003, p. 183.
h1

Dia Nobre

9 de Maio de 2010

(Mais no Flickr)

Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazúli e coral!

Naquelas redondezas não havia
Quem se gabasse dum domínio igual:
Oh, castelo tão alto! parecia
O território dum senhor feudal!

Um dia (não sei quando, nem sei donde)
Um vento seco de deserto e spleen
Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

O meu condado, o meu condado, sim!
Porque eu já fui um poderoso conde,
Naquela idade em que se é conde assim…

Porto, 1887.
NOBRE, António
1887 «Na praia lá da Boa Nova, um dia»; ed. ut.: in , Mem Martins, Publicações Europa-América, 1994, p. 127.
h1

Light of my life, fire of my mind

2 de Abril de 2010

Releio, desta vez no original inglês. A cada palavra, génio. O primeiro capítulo da primeira parte é case in point.

Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.

She was Lo, plain Lo in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.

Did she have a precursor? She did, indeed she did. In point of fact, there might have been no Lolita at all had I not loved, one summer, a certain initial girl-child. In a princedom by the sea. Oh when? About as many years before Lolita was born as my age was that summer. You can always count on a murderer for a fancy prose style.

Ladies and gentlemen of the jury, exhibit number one is what the seraphs, the misinformed, simple, noble-winged seraphs, envied. Look at this tangle of thorns.

NABOKOV, Vladimir
1955 Lolita; ed. ut.: London, Penguin, 2000, p. 9.

Impressionante. O rigor e o encanto da aliteração disfarçada. O give and take do perverso Humbert que nos dá, de imediato, o desfecho da narrativa e provas da sua incoerência — ele, que durante toda a vida desprezou psicólogos e psicanalistas, oferece uma explicação baseada na infância para a sua preferência sexual. E a multiplicação de Lolita em múltiplas personagens aos olhos de Humbert (Dolores, Lola, Dolly, Lolita, Lo) que provoca a complexificação de um carácter que nas mãos de um autor menos talentoso se reduziria a um personagem-tipo sem interesse. Lolita é magistral.

h1

Simão de Cirene #4

11 de Março de 2010

Miss Graham was delighted with Corinthians’ dress and slightly uppity manners. It gave her house the foreign air she liked to affect, for she was the core, the very heartbeat, of the city’s literary world. […] In the world Michael-Mary Graham inhabited, her mild liberalism, a residue of her Bohemian youth, and her posture of sensitive lady poet passed for anarchy. (p. 190)

MORRISON, Toni
1977 Song of Solomon; ed. ut.: New York, Vintage, 2004.

Seria fácil pegar no liberalismo afectado dos poetas, «centros literários da cidade», aqui representados na poeta Michael-Mary Graham, e dele extrair conclusões satíricas. Mas, convenhamos, se todos os males do mundo artístico se resumissem à afectação e à phoniness (recorro a uma expressão Caufieldiana) de homens e mulheres como esta, não viria daí grande mal. Um dos males é que esta corja costuma excluir tudo o que não se coadunar na sua anarquia conservadora — e esses, formam uma outra corja de gente que exclui todos os que não se colocarem imediatamente contra todo o establishment, quer se trate de uma recusa racional, motivada, ou de alguém revestido da aura romântica dos malditos. Na literatura, como em tudo o resto. Entre uns e outros, não sei quem escolher. Ou se escolher. É claro que com esta atitude me juntaria a um terceiro grupo formado por aqueles que, em conjunto, se julgam as ilhas solitárias da razão. Preso por ter cão, preso por não ter, preso por pensar em cães.

h1

Da historiografia literária

9 de Março de 2010

All literary histories are critical fictions. (p. xv)

BRADBURY, Malcolm e RULAND, Richard
1991 From Puritanism to Postmodernism. A History of American Literature, London, Penguin.
h1

Este livro

8 de Março de 2010

Este Livro

Este livro

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É
prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade
que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açucar branco e blue.

CÉSAR, Ana Cristina
1982 «Este livro»; ed. ut.: in Um Beijo que Tivesse um Blue. Antologia Poética, Ana Cristina César [selecção e prefácio de Joana Matos Frias], Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2005, p. 101.
h1

Simão de Cirene #3

6 de Março de 2010

“Looks like everybody’s going in the wrong direction but you, don’t it?” (p. 106)

MORRISON, Toni
1977 Song of Solomon; ed. ut.: New York, Vintage, 2004.
h1

So, Herr Doktor #1

5 de Março de 2010

Lady Lazarus

I have done it again.
One year in every ten
I manage it —

A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right foot

A paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.

Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify? —

The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.

Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on me

And I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.

This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.

What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to see

Them unwrap me hand and foot —
The big strip tease.
Gentlemen, ladies

These are my hands
My knees.
I may be skin and bone,

Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.

The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shut

As a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.

Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.

I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I’ve a call.

It’s easy enough to do it in a cell.
It’s easy enough to do it and stay put.
It’s the theatrical

Comeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:

‘A miracle!’
That knocks me out.
There is a charge

For the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart —
It really goes.

And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of blood

Or a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.

I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold baby

That melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.

Ash, ash —
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there —

A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.

Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.

Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.

PLATH, Sylvia
1962 «Lady Lazarus»; ed. ut.: in Ariel. The restored edition, New York, HarperCollins, 2004, p. 14.

E, com algumas ligeiras alterações, lido na haunting voice da sua hauntingly beautiful autora:

h1

À sombra de Quintais #1 e O problema de ser Leal #3

3 de Março de 2010

Ginjal (com Sandra contemplando Lisboa)

Se uma cidade deslizasse pelas águas
nós não saberíamos classificá-la: uma cidade lacustre,
uma cidade movente, uma cidade folha de papel
circulando indecisa e lenta sobre a superfície
líquida de um rio?
Mas daqui, desta distância, o que avistamos
senão o rio que invade as ruas,
todas as ruas de igual modo invadidas pelo seu caudal.
O que avistamos senão o mero exercício retórico de ver,
de olhar sobre a interposta cidade:
uma Lisboa milagrosamente veneziana,
imaginariamente veneziana,
e nós aqui sentados contemplando,
procurando um consenso mínimo,
não sobre respostas que não temos,
mas sobre abundantes perifrásticas interrogações.

QUINTAIS, Luís
1999 «Ginjal (com Sandra contemplando Lisboa)» in Umbria, Guimarães, p. 43.

A cidade líquida

A cidade movia-se como um barco. Não. Talvez o chão se abrisse em algum lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água. Como sobreviver a uma cidade líquida?

(Eu tentava sustentar-me como um barco.)

As aves molhavam-se contra as torres. Tudo evaporava: os sinos, os relógios, os gatos, o solo. Apodreciam os cabelos, o olhar. Havia peixes imóveis na soleira das portas. Sólidos mastros que seguravam as paredes das coisas. Os marinheiros invadiam as tabernas. Riam alto do alto dos navios. Rompiam a entrada dos lugares. As pessoas pescavam dentro de casa. Dormiam em plataformas finíssimas, como jangadas. A náusea e o frio arroxeavam-lhes os lábios. Não viam. Amavam depressa ao entardecer. Era o medo da morte. A cidade parecia de cristal. Movia-se com as marés. Era um espelho de outras cidades costeiras. Quando se aproximava, inundava os edifícios, as ruas. Acrescentava-se ao mundo. Naufragava-o. Os habitantes que a viam aproximar-se ficavam perplexos a olhá-la, a olhar-se. Morriam de vaidade e de falta de ar. Os que eram arrastados agarravam-se ao que restava do interior das casas. Sentiam-se culpados. Temiam o castigo. Tantas vezes desejaram soltar as cordas da cidade. Agora partiam com ela dentro de uma cidade líquida.

(Eu ficara exactamente no lugar de onde saiu.)

LEAL, Filipa
«A cidade líquida» in A Cidade Líquida e Outras Texturas, Porto, Deriva, 2006, p.9.
h1

Quem tem medo de Virginia Woolf? #5

25 de Fevereiro de 2010

– Hampton Court. É aqui o nosso ponto de encontro. Reparem nas chaminés vermelhas, nas ameias quadradas de Hampton Court. O tom de voz que utilizo para pronunciar «Hampton Court» serve para provar que sou um indivíduo de meia-idade. Há dez, quinze anos atrás, teria dito «Hampton Court?», ou seja, na interrogativa, perguntando-me o que lá poderia encontrar. Lagos, labirintos? Ou, como que antecipa algo: «O que me irá acontecer uma vez lá chegado? Quem irei encontrar?». Agora, Hampton Court, Hampton Court, as palavras chocam contra um gongo suspenso no ar (o qual fiz os possíveis por limpar através de meia dúzia de telefonemas e postais) e ecoam em anéis de som, estrondosos, vibrantes. (p. 157 – 158)

Woolf, Virginia
1931 The Waves; ed. ut.: As Ondas, Lisboa, Público, 2002.