
All literary histories are critical fictions. (p. xv)


All literary histories are critical fictions. (p. xv)

Este livro
Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É
prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade
que você seduz, charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açucar branco e blue.

“Looks like everybody’s going in the wrong direction but you, don’t it?” (p. 106)

Lady Lazarus
I have done it again.
One year in every ten
I manage it —A sort of walking miracle, my skin
Bright as a Nazi lampshade,
My right footA paperweight,
My face a featureless, fine
Jew linen.Peel off the napkin
O my enemy.
Do I terrify? —The nose, the eye pits, the full set of teeth?
The sour breath
Will vanish in a day.Soon, soon the flesh
The grave cave ate will be
At home on meAnd I a smiling woman.
I am only thirty.
And like the cat I have nine times to die.This is Number Three.
What a trash
To annihilate each decade.What a million filaments.
The peanut-crunching crowd
Shoves in to seeThem unwrap me hand and foot —
The big strip tease.
Gentlemen, ladiesThese are my hands
My knees.
I may be skin and bone,Nevertheless, I am the same, identical woman.
The first time it happened I was ten.
It was an accident.The second time I meant
To last it out and not come back at all.
I rocked shutAs a seashell.
They had to call and call
And pick the worms off me like sticky pearls.Dying
Is an art, like everything else.
I do it exceptionally well.I do it so it feels like hell.
I do it so it feels real.
I guess you could say I’ve a call.It’s easy enough to do it in a cell.
It’s easy enough to do it and stay put.
It’s the theatricalComeback in broad day
To the same place, the same face, the same brute
Amused shout:‘A miracle!’
That knocks me out.
There is a chargeFor the eyeing of my scars, there is a charge
For the hearing of my heart —
It really goes.And there is a charge, a very large charge
For a word or a touch
Or a bit of bloodOr a piece of my hair or my clothes.
So, so, Herr Doktor.
So, Herr Enemy.I am your opus,
I am your valuable,
The pure gold babyThat melts to a shriek.
I turn and burn.
Do not think I underestimate your great concern.Ash, ash —
You poke and stir.
Flesh, bone, there is nothing there —A cake of soap,
A wedding ring,
A gold filling.Herr God, Herr Lucifer
Beware
Beware.Out of the ash
I rise with my red hair
And I eat men like air.
E, com algumas ligeiras alterações, lido na haunting voice da sua hauntingly beautiful autora:

Ginjal (com Sandra contemplando Lisboa)
Se uma cidade deslizasse pelas águas
nós não saberíamos classificá-la: uma cidade lacustre,
uma cidade movente, uma cidade folha de papel
circulando indecisa e lenta sobre a superfície
líquida de um rio?
Mas daqui, desta distância, o que avistamos
senão o rio que invade as ruas,
todas as ruas de igual modo invadidas pelo seu caudal.
O que avistamos senão o mero exercício retórico de ver,
de olhar sobre a interposta cidade:
uma Lisboa milagrosamente veneziana,
imaginariamente veneziana,
e nós aqui sentados contemplando,
procurando um consenso mínimo,
não sobre respostas que não temos,
mas sobre abundantes perifrásticas interrogações.
A cidade líquida
A cidade movia-se como um barco. Não. Talvez o chão se abrisse em algum lado. Não. Era a tontura. A despedida. Não. A cidade talvez fosse de água. Como sobreviver a uma cidade líquida?
(Eu tentava sustentar-me como um barco.)
As aves molhavam-se contra as torres. Tudo evaporava: os sinos, os relógios, os gatos, o solo. Apodreciam os cabelos, o olhar. Havia peixes imóveis na soleira das portas. Sólidos mastros que seguravam as paredes das coisas. Os marinheiros invadiam as tabernas. Riam alto do alto dos navios. Rompiam a entrada dos lugares. As pessoas pescavam dentro de casa. Dormiam em plataformas finíssimas, como jangadas. A náusea e o frio arroxeavam-lhes os lábios. Não viam. Amavam depressa ao entardecer. Era o medo da morte. A cidade parecia de cristal. Movia-se com as marés. Era um espelho de outras cidades costeiras. Quando se aproximava, inundava os edifícios, as ruas. Acrescentava-se ao mundo. Naufragava-o. Os habitantes que a viam aproximar-se ficavam perplexos a olhá-la, a olhar-se. Morriam de vaidade e de falta de ar. Os que eram arrastados agarravam-se ao que restava do interior das casas. Sentiam-se culpados. Temiam o castigo. Tantas vezes desejaram soltar as cordas da cidade. Agora partiam com ela dentro de uma cidade líquida.
(Eu ficara exactamente no lugar de onde saiu.)

– Hampton Court. É aqui o nosso ponto de encontro. Reparem nas chaminés vermelhas, nas ameias quadradas de Hampton Court. O tom de voz que utilizo para pronunciar «Hampton Court» serve para provar que sou um indivíduo de meia-idade. Há dez, quinze anos atrás, teria dito «Hampton Court?», ou seja, na interrogativa, perguntando-me o que lá poderia encontrar. Lagos, labirintos? Ou, como que antecipa algo: «O que me irá acontecer uma vez lá chegado? Quem irei encontrar?». Agora, Hampton Court, Hampton Court, as palavras chocam contra um gongo suspenso no ar (o qual fiz os possíveis por limpar através de meia dúzia de telefonemas e postais) e ecoam em anéis de som, estrondosos, vibrantes. (p. 157 – 158)

No entanto, eu só existo quando o canalizador, o comerciante de cavalos, ou seja lá quem for, diz qualquer coisa que me desperta para a vida. E então que o fumo que se eleva da minha frase se torna maravilhoso, subindo e descendo, flutuando e envolvendo as lagostas vermelhas e os frutos amarelos, tornando-os maravilhosos. Todavia, reparem só na falsidade desta frase, construída de evasivas e velhas mentiras. É por isso que o meu carácter é em grande parte constituído pelos estímulos que me são fornecidos pelos outros, não me pertencendo do mesmo modo que a vossa personalidade vos pertence. Existe uma linha fatal, um qualquer veio de prata, irregular e sem rumo certo, a enfraquecê-la. (p. 99)
Quem sou eu? Ou antes, quem sou eu? Como se define um eu sem que haja um tu? Será que a identidade só existe no diálogo?