Posts Tagged ‘Deriva’

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Apresentação de Tentações, de Pedro Eiras

20 de Abril de 2010

Eu e Pedro Eiras, Fnac de Santa Catarina.

Foto de Pedro Ferreira


Também no blog da Deriva.

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O problema de ser Leal #2

17 de Fevereiro de 2010

O tempo do lugar

Era uma cidade
densa, povoada.

Sem um minuto quadrado.

LEAL, Filipa
«O Tempo do lugar» in A Cidade Líquida e Outras Texturas, Porto, Deriva, 2006, p.33.
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O problema de ser Leal

9 de Fevereiro de 2010

O lugar do tempo

Era uma cidade cidade,
sem vícios e sem sonhos.

Cidade descarnada:
só prédios e livros sem ninguém.

Era uma cidade de
algumas ruas, algumas estátuas,
alguns jardins, alguns amores
perfeitos
na coerência do seu abandono.

Cidade sem memória.
Cidade sem perda.
Cidade antes ou depois.

LEAL, Filipa
«O lugar do tempo» in A Cidade Líquida e Outras Texturas, Porto, Deriva, 2006, p.34.
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Arrastar Tinta

4 de Setembro de 2009

o luar apagado, como se diz de uma luz, apagada. Não fundida, mas apagada: onde estava acesa. Des-acesa, portanto.

– Arrastar Tinta, Pedro Eiras

No princípio dos séculos, Horácio escreve «Ut pictura poesis» e, se já não o estavam, poesia e pintura ficam condenadas a caminhar lado a lado pela eternidade. Em Arrastar Tinta, Nuno Barros e Pedro Eiras celebram a feliz união maldita das duas artes. Nuno Barros contribui com os «pintados», Pedro Eiras com os «escritos».
O livro é dividido a meio – metade para as reproduções das telas de Barros, a outra metade para o exercício escrito de Eiras – para que o leitor não caia na tentação de julgar os trabalhos plásticos como mera ilustração dos textos, ou estes como inspirados no trabalho das tintas.
Na verdade, a metade consagrada à poesia não é tanto uma ilustração da pintura como uma narração do acto de criar: «nada diz, apenas pinta. E pintar é apenas arrastar tinta» (p.33). Visão redutora, decerto. Nada nestes textos nos leva para o mundo da narração, todavia, recuperando a visão de Horácio, temos pequenos quadros pintados com palavras: «O instante: os insectos, os ímanes, a cúpula inventada no céu com os seus cometas e supernovas. Claro, muito claro» (p.50) – e ao mesmo tempo estas pinturas frásicas estão completamente afastadas do que se entende por descrição. Não é uma descrição, é o processo de desenhar, a mente do pintor no momento em que arrasta tinta pela tela. Conclui-se: pintar não é arrastar tinta, ou antes, «pintar é apenas arrastar tinta» e todo o processo neurológico que implica o movimento humano. É isso que o sujeito poético faz: expõe o automatismo não cerebral de pintar. É como um exame médico, uma TAC que, páginas atrás o pintado Sei exactamente o que faço e no entanto faço-o (pág. 10) reproduz (e cujo título é disso reflexo).
Pormenor, não menor, interessante: como é que o sujeito número um reproduz o movimento criativo do sujeito número dois? Ou como é que o sujeito número dois grafa o acto do sujeito número um? São dois os autores, dois os sujeitos. Assim nos garante a capa de Arrastar Tinta e fomos formatados para acreditar em capas. De repente, contrariando tudo o que esperávamos, pintados e escritos parecem ter exactamente a mesma origem. «Justa a retina,/ se/ justo o mundo» (p.37) mas o olho não pode ser verdadeiro se de dois autores encontramos um único sujeito. «Injusta a retina,/ se/ injusto o mundo» (idem): condição assegurada. O mundo de Arrastar Tinta foi cruel com o leitor. Ou talvez não, «tudo se move./ Questão de perspectiva» (p.41). Esta é a questão central do livro. É tudo uma «questão de perspectiva»: pintura, literatura, teatro, drama, cinema, música – perspectivas de uma mesma questão, invenções de um mesmo sujeito. «A mão é um exercício espiritual, alguns resquícios de músculo, nada mais» (p.45) e a obra, pintada ou escrita, é o resquício muscular de um exercício espiritual.
Dois autores fundem-se em um. Será? «Nunca vi o invisível./ Diz aquele que escreve sobre aquele que pinta» (p.49). Subitamente há, de novo, dois sujeitos. Um que escreve, um que pinta. Mas quem é quem? «Nunca verei o invisível, diz ele/ (quem? um de ambos)» (idem). Há novamente dois, mas dois anónimos. Um pinta, outro escreve, mas são ambos o mesmo espírito com resquícios de músculo diferente. Esta ideia é levada ao limite quando, já findo o livro, uma pequena nota revela, confidente, que há «ecos de Echart, Kleist, Freud, Carlos de Oliveira, Herberto Helder, Gastão Cruz, Manuel Gusmão, Gonçalo M. Tavares, Manuel de Freitas» (p.56) e então dois autores, que foram unos na criação espiritual, que voltaram a ser dois pela concretização muscular, tornam-se repentinamente numa multidão. Arrastar Tinta torna-se um livro escrito por todo o sistema literário, algo que é profundamente aceite e reflectido por um único sinal de pontuação: «No início, dizia eu (?), era o caos» (p.53).
No término, como no início, o caos autoral reina. Arrastar Tinta é um livro desenhado a mil mãos que reflecte, de maneira mais ou menos evidente, sobre a sua própria origem. A sua concretização em páginas é o menor dos males: afinal, como tantas vezes repetido, «pintar é apenas arrastar tinta» e tudo o resto é que verdadeiramente interessa. A origem e o espírito, nunca o músculo. A mente sobre a matéria ou, aplicando, a Arte sobre as artes. Reduzindo-me da crítica da Arte para a da arte literária, Arrastar Tinta espelha um trabalho de linguagem intenso, reflectivo e depurado. Reduzir é essencial porque o essencial é essencial, tudo o que sobra não passa de poeira. Exemplarmente bem organizado, dispostos, quase que geometricamente, os textos mais longos a partir de alguns textos breves, aprofundando sem cirandar à roda daquilo a que se propunham. Tem o condão de ser um livro e não apenas uma amálgama de poemas cosidos a telas. Tem o mérito de ser inquieto, múltiplo, des-sossegado. Tem a qualidade de ser precioso.

Publicado originalmente no Rascunho.

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agradecimento #8

17 de Agosto de 2009

A propósito desta crítica, António Luís Catarino diz algo que me enche de orgulho.

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A Crítica ao Crítico

30 de Junho de 2009

Suponho que por ossos do ofício, ultimamente tenho-me visto mais do lado da crítica do que do lado da arte. Cheguei mesmo a enviar um tweet sobre o assunto – embora me referisse a uma polémica dentro do mundo da música e não da literatura. Mas também as há, as polémicas, dentro do mundo da crítica literária. Chamou-me a atenção esta em particular. Não consegui ter acesso ao texto de António Guerreiro o que, naturalmente, não me torna possível uma opinião imparcial. Admito, menos imparcial ainda porque se trata de uma editora que publica autores que me são próximos e autores de que gosto muito. Apesar de tudo, neste espaço, reservo-me ao direito da parcialidade.

Portanto, considero admirável a maneira como a Deriva defende João Paulo Sousa e o seu livro (aqui e aqui): é bom ter uma editora que confie assim nos seus autores. A Deriva conseguiu trazer-me um pouco de volta ao lado da arte – por isso lhe agradeço. E agora, uma curiosidade tremenda em ler O Mundo Sólido.