Não se admire de me ver sempre a vaguear com os olhos. De facto é esta a minha maneira de ler, e só assim a leitura me é proveitosa. Se um livro me interessar realmente, não consigo segui-lo mais de poucas linhas porque a minha mente, captando um pensamento que o texto lhe propõe, ou um sentimento, ou uma interrogação, ou uma imagem, faz-lhe uma tangente e salta de pensamento em pensamento, de imagem em imagem, num itinerário de raciocínios e fantasias que precisa de percorrer até ao fim, afastando-me da leitura, e de uma leitura suculenta, embora só consiga ler de cada livro poucas páginas. Mas essas poucas páginas para mim já encerram o universo inteiro, de que não consigo ver o fundo.
CALVINO, Italo
1979 Se una notte d’inverno un viaggiatore; ed. ut.: Se Numa Noite de Inverno Um Viajante, Público, Porto, 2002, 218.
