Posts Tagged ‘Leitura’

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Tinha Paixão? – terceira sessão

4 de Maio de 2011

Sobre Campos e Oliveira e Clarice Lispector falam Pedro Lopes Almeida e Joana Matos Frias. José Caldas lê Clarice Lispector. Mais logo, na Livraria Leitura, às 18h30. A não perder.

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Sylvia, II

11 de Setembro de 2010


Le Muse inquietanti (1916), Giorgio de Chirico

The Disquieting Muses

Mother, mother, what illbred aunt
Or what disfigured and unsightly
Cousin did you so unwisely keep
Unasked to my christening, that she
Sent these ladies in her stead
With heads like darning-eggs to nod
And nod and nod at foot and head
And at the left side of my crib?

Mother, who made to order stories
Of Mixie Blackshort the heroic bear,
Mother, whose witches always, always
Got baked into gingerbread, I wonder
Whether you saw them, whether you said
Words to rid me of those three ladies
Nodding by night around my bed,
Mouthless, eyeless, with stitched bald head.

In the hurricane, when father’s twelve
Study windows bellied in
Like bubbles about to break, you fed
My brother and me cookies and Ovaltine
And helped the two of us to choir:
‘Thor is angry: boom boom boom!
Thor is angry: we don’t care!’
But those ladies broke the panes.

When on tiptoe the schoolgirls danced,
Blinking flashlights like fireflies
And singing the glowworm song, I could
Not lift a foot in the twinkle-dress
But, heavy-footed, stood aside
In the shadow cast by my dismal-headed
Godmothers, and you cried and cried:
And the shadow stretched, the lights went out.

Mother, you sent me to piano lessons
And praised my arabesques and trills
Although each other found my touch
Oddly wooden in spite of scales
And the hours of practicing, my ear
Tone-deaf and yes, unteachable.
I learned, I learned, I learned elsewhere,
From muses unhired by you, dear mother.

I woke one day to see you, mother,
Floating above me in bluest air
On a green balloon bright with a million
Flowers and bluebirds that never were
Never, never, found anywhere.
But the little planet bobbed away
Like a soap-bubble as you called: Come here!
And I faced my traveling companions.

Day now, night now, at head, side, feet,
They stand their vigil in gowns of stone,
Faces blank as the day I was born,
Their shadows long in the setting sun
That never brightens or goes down.
And this kingdom you bore me to,
Mother, mother. But no frown of mine
Will betray the company I keep.

Plath, Sylvia
1957 «The disquieting muses»; ed. ut.: in Complete Poems, New York, HarpperCollins, 75-76.

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Notas para a contradição do meu mestre Nabokov ou pequeno apontamento sobre Anna Karénina, Tolstoi e Dostoievski

26 de Julho de 2010

1. Na crítica de Nabokov existe uma certa tendência normativa que colide profundamente com o meu pensamento. Exemplo disso encontra-se no pequeno posfácio a Anna Karénina que a edição da Relógio D’Água (2006) inclui. Logo no primeiro parágrafo, Nabokov pretende estabelecer uma tabela dos maiores escritores russos de sempre:

Tolstoi é o maior escritor russo de ficção em prosa. Deixando de lado os seus precursores Púchkin e Lermontov, talvez se possam ordenar os grandes artistas russos da prosa da seguinte forma: em primeiro Tolstoi; em segundo Gogol; em terceiro Tchékov; e em quarto Turgueniev. É como dar notas aos trabalhos dos alunos, e não há dúvida de que Dostoievski e Saltykov estão lá fora à porta do meu gabinete para discutir a má nota que tiveram. (p.835)

Não consigo compreender este tipo de classificação linear: em primeiro lugar porque, se falamos da obra completa de um autor, nenhuma pode ser tão uniforme que se possa distanciar das outras; em segundo lugar porque me parece que, a ser possível classificar uma obra literária — algo de que não estou minimamente certo –, essa classificação não poderia ser nunca uma classificação relativa, isto é, nunca se poderia dizer que A é melhor que B, simplesmente pelo facto de o objecto produzido por A e o objecto produzido por B serem sempre diferentes — a não ser, é claro, que se trate de uma questão de plágio –; em terceiro lugar, creio, com todas as fibras do meu ser, que o único tipo de classificação possível de uma obra literária terá de ser, obrigatoriamente, qualitativa e subjectiva, isto é, A é bom para mim, coincidindo e reduzindo, portanto, essa classificação à experiência individual de leitura; em quarto e último lugar, ainda que admitindo o incompreensível esforço classificativo de Nabokov, seria impensável, para mim, atribuir a Dostoievski uma nota negativa. É certo que Dostoievski de Noites Brancas não é o mesmo de Crime e Castigo; mas também o Tolstoi de Anna Karénina não será exactamente o mesmo de Os Cossacos (e fecho aqui a discussão que inadvertidamente abri sobre essa controversa categoria de autor), mas não creio que Dostoievski fique a dever assim tanto a Tolstoi, ao contrário daquilo que Nabokov parece afirmar. Na verdade, neste momento em que terminei a leitura de Anna Karénina não consigo decidir qual dos dois tem, para mim, maior interesse: Crime e Castigo ou Anna Karénina?

2. Em nota de rodapé, Nabokov discute brevemente os problemas de tradução do apelido Karénina para inglês; em russo, um apelido que designe uma mulher adquire um ‘a’ no final, assim a esposa de Karénin é Karénina, a de Lévin é Lévina, o que em inglês, segundo o autor, não deve acontecer: para Nabokov, Karénina deve ser «Mrs. Karénin». De novo discordo de Nabokov; é essencial para o romance a pertença da mulher ao seu esposo — assim, Karénina é a esposa de Karénin algo que o título «Mrs.» não implica necessariamente; além disso — e neste momento recorro apenas à tradução portuguesa — em Anna Karénina são raras as ocasiões em que se usam títulos para os personagens: Vronski é quase sempre Vronski e apenas raramente Conde Vronski; assim, considero que acrescentar «Mrs.» ao nome de Anna deturparia a forma de tratamento preferida por Tolstoi.

3. Não posso deixar de concordar com Nabokov quando diz que Anna Karénina é profundamente diferente de Madame Bouvary, ao contrário daquilo que a crítica e os leitores menos exigentes acreditam: Anna não foi castigada por ter cometido adultério, mas por outra razão; não posso, contudo, concordar com a razão apontada por Nabokov: não creio que a relação de Anna com Vronski se possa resumir a uma relação carnal, mesmo que por oposição à relação de Lévin com Kiti; há muito mais a dizer sobre a complicada ligação de Anna e Vronski.

4. Como ler depois de Anna Karénina?

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Sinais de Fogo #11

19 de Maio de 2010

Sinais de fogo, os homens se despedem,
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, p. 462.
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Sinais de Fogo #10

19 de Maio de 2010

Mas, entre mim e a inocência de estar com os outros, haveria, daí em diante, não um muro de palavras sentimentais e consoladoras como da poesia de que eu não gostava, mas um vácuo frígido, feito da eventualidade de elas criarem um sentido e uma relação em tudo, se eu deixasse que elas aparecessem. Era como se uma última virgindade que só alguns por acaso perdem me tivesse sido tirada, e eu ficasse isolado, contraditoriamente e irremediavelmente, sujo de essencial pureza, de tudo e de todos.

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, p. 519.
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Sinais de Fogo #9

16 de Maio de 2010

Brandamente, [o Rodrigues] empurrou-me um pouco pelo corredor adiante, e agachou-se diante de mim. Fechando os olhos, senti-me coberto de suor frio. Ouvi-lhe a voz: — Com que então foi com isto que a fizeste tua? — Não respondi, e ainda que quisesse não poderia. Esperei. Não aconteceu nada. E foi com alívio que ouvi a voz dele junto da minha cara, e abri os olhos: — Tens isso sujo de merda. Lava-te primeiro.

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, p. 429.
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Sinais de Fogo #8

11 de Maio de 2010

Aviso à navegação (isto é, quem não leu e não conhece o enredo de Sinais de Fogo): sempre que falo em Jorge, não me refiro a Jorge de Sena, autor, mas sim a Jorge, narrador autodiegético.

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Sinais de Fogo #7

11 de Maio de 2010

Ainda não me referi à Guerra Civil Espanhola. Neste momento, interessa-me só apontar: Jorge é o homem que vai ficar em terra. Não sei que ilação tirar disto, para já.

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Sinais de Fogo #6

11 de Maio de 2010

Ainda sobre o primeiro encontro sexual de Mercedes e Jorge — o entusiasmo do narrador deve-se:

a) Hipótese ultra-romântica: ao amor inesgotável que unia os amantes;
b) Hipótese ultra-cínica: a Mercedes ser a noiva de outro homem.

Hipótese mais provável: somewhere in the middle.

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Sinais de Fogo #5

10 de Maio de 2010

E, mesmo que soubesse, eu podia sabê-lo, como de tudo, de três maneiras: por me contarem, por eu ter assistido, ou por eu ter participado. Quando não tivesse participado em alguma coisa, mas ouvido ou visto, o que me dissessem, ou o que fizessem diante de mim, seria exactamente a verdade?

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, 2003, p. 235-236.

A subjectividade do real é aqui perfeitamente problematizada por Jorge: se não fiz, como posso acreditar naquilo que vi ou ouvi? Os sentidos enganam. Falta-lhe ainda perceber que o real também foge àquilo que se faz: exemplo disso é a orgia de uma das noites anteriores que é sempre recordada como se tivesse sido vivida por outro, esfumada e irreal. O que é o real?

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Sinais de Fogo #4

9 de Maio de 2010

E, de repente, senti que, para além da identidade em que todos se diferençavam uns dos outros, uma coisa estava acontecendo, acontecera naqueles poucos dias, na acumulação de coisas que haviam desabado sobre mim: tudo desabava numa desordem sem fronteiras nítidas e passava a ter o valor que cada um lhe desse. Isto, porém, era ainda um segredo de cada um.

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, 2003, p. 189.

Novo sinal de amadurecimento intelectual de Jorge: percebe, finalmente, que não há fronteiras no mundo, que não há «incólumes» e «marcados», mas que cada um é a sua própria desordem.

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Sinais de Fogo #3

9 de Maio de 2010

Nunca sentira, nem mesmo nos momentos de maior satisfação, nada de semelhante à sensação de total domínio, que fora a minha ao possuí-la. E tinha sido, ao senti-la estremecer e gemer comigo, como se a virgindade dela se tivesse refeito, precisamente quando e porque eu a possuía.

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, 2003, p. 183.
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Sinais de Fogo #2

9 de Maio de 2010

Jorge está no ponto sem retorno. Não se trata propriamente da perda da inocência — já não é virgem — mas antes o nascimento do homem adulto. O encontro com Mercedes não é uma iniciação sexual — não é sequer um encontro sexual. É a sobreposição física dos vários planos do romance: a guerra, o sexo, a maturidade, o amor, o conhecimento, a poesia.

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Sinais de Fogo

4 de Maio de 2010

Não consegui resistir. Não queria comprá-lo já — o dinheiro não abunda — mas não consegui resistir. Na minha incapacidade de regateio, ainda tentei um «e não há hipótese de me fazer a cinco euros?». A resposta veio rápida: «Cinco euros? É Jorge de Sena!». Pensei: «Com esta calaste-me», paguei o que me pediam, trouxe o livro comigo. E mesmo sabendo que não tenho tempo nenhum para ler, acho que não vou resistir a começá-lo hoje mesmo.

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Light of my life, fire of my loins #2

9 de Abril de 2010

Esta é uma análise em diferido. O livro, esse, já o terminei há quase duas semanas. É-me difícil recriar tudo o que pensei quando lia esta obra magistral. Deixo apenas mais uma nota, para que o humor não passe despercebido. Em primeiro lugar, há que ter em consideração este famoso solilóquio de Macbeth, de Shakespeare:

To-morrow, and to-morrow, and to-morrow,
Creeps in this petty pace from day to day
To the last syllable of recorded time,
And all our yesterdays have lighted fools
The way to dusty death. Out, out, brief candle!
Life’s but a walking shadow, a poor player
That struts and frets his hour upon the stage
And then is heard no more: it is a tale
Told by an idiot, full of sound and fury,
Signifying nothing.

Macbeth, act V sc. V.

E agora, uma pequena passagem do final de Lolita, quando Humbert Humbert confronta Quilty e este tenta comprar a sua vida. Diz Clare Quilty (que é como quem diz Clearly Guilty):

I have not much a the bank right now but I propose to borrow — you know, as the Bard said, with that cold in his head, to borrow and to borrow and to borrow.

NABOKOV, Vladimir
1955 Lolita; ed. ut.: London, Penguin, 2000, p. 301.

Hilariante, right? Enfim, agora é tempo de voltar a Justine (já tinha dito que estou a ler Sade?).

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Light of my life, fire of my mind

2 de Abril de 2010

Releio, desta vez no original inglês. A cada palavra, génio. O primeiro capítulo da primeira parte é case in point.

Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.

She was Lo, plain Lo in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.

Did she have a precursor? She did, indeed she did. In point of fact, there might have been no Lolita at all had I not loved, one summer, a certain initial girl-child. In a princedom by the sea. Oh when? About as many years before Lolita was born as my age was that summer. You can always count on a murderer for a fancy prose style.

Ladies and gentlemen of the jury, exhibit number one is what the seraphs, the misinformed, simple, noble-winged seraphs, envied. Look at this tangle of thorns.

NABOKOV, Vladimir
1955 Lolita; ed. ut.: London, Penguin, 2000, p. 9.

Impressionante. O rigor e o encanto da aliteração disfarçada. O give and take do perverso Humbert que nos dá, de imediato, o desfecho da narrativa e provas da sua incoerência — ele, que durante toda a vida desprezou psicólogos e psicanalistas, oferece uma explicação baseada na infância para a sua preferência sexual. E a multiplicação de Lolita em múltiplas personagens aos olhos de Humbert (Dolores, Lola, Dolly, Lolita, Lo) que provoca a complexificação de um carácter que nas mãos de um autor menos talentoso se reduziria a um personagem-tipo sem interesse. Lolita é magistral.

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Dia de Poesia

21 de Março de 2010

Emprego e desemprego do poeta

Deixai que em suas mãos cresça o poema
como o som do avião no céu sem nuvens
ou no surdo verão as manhãs de domingo
Não lhe digais que é mão-de-obra a mais
que o tempo não está para a poesia

Publicar versos em jornais que tiram milhares
talvez até alguns milhões de exemplares
haverá coisa que se lhe compare?
Grandes mulheres como semiramis
públia hortênsia de castro ou vitória colonna
todas aquelas que mais íntimo morreram
não fizeram tanto por se imortalizar

Oh que agradável não é ver um poeta em exercício
chegar mesmo a fazer versos a pedido
versos que ao lê-los o mais arguto crítico em vão procuraria
quem evitasse a guerra maiúsculas-minúsculas melhor
Bem mais do que a harmonia entre os irmãos
o poeta em exercício é como azeite precioso derramado
na cabeça e na barba de aarão

Chorai profissionais da caridade
pelo pobre poeta aposentado
que já nem sabe onde ir buscar os versos
Abandonado pela poesia
oh como são compridos para ele os dias
nem mesmo sabe aonde pôr as mãos

BELO, Ruy
1961 «Emprego e desemprego do poeta» in Aquele Grande Rio Eufrates; ed. ut.: in Todos os Poemas, vol. I, 2ªed., Lisboa, Assírio & Alvim, 2004, 29.
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A Single Man

21 de Março de 2010

a single man

George, o homem invisível.
Quando fala aos seus alunos, George assume que as minorias são tão mais temidas — e por isso mais perseguidas — quanto mais invisíveis. Referência clara à minoria homossexual. Ou talvez não. George é o homem invisível que não consegue deixar de ser notado. De manhã, quando observa os seus vizinhos pela janela da casa de banho, George é visto pela vizinha que o saúda; quando caminha pelo campus, George atravessa uma multidão de estudantes que caminha em direcção contrária, mas nunca choca com ninguém — os estudantes abrem-lhe alas; quando se senta, sozinho, num sofá do banco para procurar o livro de cheques, uma criança vem ter com ele. Atropelam-se os momentos em que o homem invisível é visto. Ele próprio o admite, nos minutos finais do filme: eu sou exactamente aquilo que aparento ser, desde que se olhe com atenção.

George, o homem que não consegue controlar o tempo.
George vive rodeado de relógios. Ao longo do dia em que o acompanhamos, quase permanentemente ouvimos em pano de fundo o tiquetaque. Planeou o dia ao pormenor, e mesmo assim George vê-se à espera do tempo — para sair de casa, para dar uma aula, para jantar. Isto significa uma de duas coisas: George tem o controlo absoluto do tempo ou George não tem qualquer controlo sobre o tempo. Escolho talvez esta última hipótese — quando lhe perguntam as horas, George não é capaz de responder porque o seu relógio de pulso parou.

George, o homem que vive em cores diferentes.
O controlo de imagem é subtil mas perceptível: quando George está sozinho, as cores são frias e melancólicas, quase preto e branco, quase sépia; quando uma analepse surge ou quando há uma interacção entre George e outro ser (não necessariamente humano), sente-se o calor do technicolor da década de 60.

George, o homem com o coração ao contrário.
Nada neste filme é por acaso. Então, deixo a pergunta: porque é que a dor que antecede o ataque cardíaco de George é no braço direito e não no esquerdo?

A Single Man, um filme quase perfeito. Banda sonora magistral. Fotografia sublime. Interpretações arrebatadoras. Realização brilhante. Os detractores desta película apontam-lhe, regra geral, o defeito de ser «artística». Como se chamar arte ao cinema fosse um insulto.

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Simão de Cirene #5

12 de Março de 2010

Ninguém pode saber quem é se não souber de onde veio. Um nome não é nada e é tudo: é o princípio, a primeira palavra e a memória que sobra quando se desaparece. Há quinhentos anos viveu João Nunes. Dele, tudo o que sei é o nome. Basta.

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Simão de Cirene #4

11 de Março de 2010

Miss Graham was delighted with Corinthians’ dress and slightly uppity manners. It gave her house the foreign air she liked to affect, for she was the core, the very heartbeat, of the city’s literary world. […] In the world Michael-Mary Graham inhabited, her mild liberalism, a residue of her Bohemian youth, and her posture of sensitive lady poet passed for anarchy. (p. 190)

MORRISON, Toni
1977 Song of Solomon; ed. ut.: New York, Vintage, 2004.

Seria fácil pegar no liberalismo afectado dos poetas, «centros literários da cidade», aqui representados na poeta Michael-Mary Graham, e dele extrair conclusões satíricas. Mas, convenhamos, se todos os males do mundo artístico se resumissem à afectação e à phoniness (recorro a uma expressão Caufieldiana) de homens e mulheres como esta, não viria daí grande mal. Um dos males é que esta corja costuma excluir tudo o que não se coadunar na sua anarquia conservadora — e esses, formam uma outra corja de gente que exclui todos os que não se colocarem imediatamente contra todo o establishment, quer se trate de uma recusa racional, motivada, ou de alguém revestido da aura romântica dos malditos. Na literatura, como em tudo o resto. Entre uns e outros, não sei quem escolher. Ou se escolher. É claro que com esta atitude me juntaria a um terceiro grupo formado por aqueles que, em conjunto, se julgam as ilhas solitárias da razão. Preso por ter cão, preso por não ter, preso por pensar em cães.