Posts Tagged ‘Notas’

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Das weisse Band

28 de Julho de 2010

Poster de Das Weiss Band

Demasiado tarde: só agora vi Das weisse Band (The White Ribbon / O Laço Branco) — é inacreditável. Deixo apenas um apontamento: se é certo que é aquela geração de crianças que se vai transformar na geração nazi alemã (abrindo assim a possibilidade de interpretar os acontecimentos do filme como uma possível explicação para o que veio depois), é também certo que tudo se passa antes da I Guerra Mundial, isto é, antes do processo de demonização da Alemanha; ora, será que isto não permitirá descolar o filme da óbvia leitura nazi e fazê-lo crescer noutra direcção?

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Notas para a contradição do meu mestre Nabokov ou pequeno apontamento sobre Anna Karénina, Tolstoi e Dostoievski

26 de Julho de 2010

1. Na crítica de Nabokov existe uma certa tendência normativa que colide profundamente com o meu pensamento. Exemplo disso encontra-se no pequeno posfácio a Anna Karénina que a edição da Relógio D’Água (2006) inclui. Logo no primeiro parágrafo, Nabokov pretende estabelecer uma tabela dos maiores escritores russos de sempre:

Tolstoi é o maior escritor russo de ficção em prosa. Deixando de lado os seus precursores Púchkin e Lermontov, talvez se possam ordenar os grandes artistas russos da prosa da seguinte forma: em primeiro Tolstoi; em segundo Gogol; em terceiro Tchékov; e em quarto Turgueniev. É como dar notas aos trabalhos dos alunos, e não há dúvida de que Dostoievski e Saltykov estão lá fora à porta do meu gabinete para discutir a má nota que tiveram. (p.835)

Não consigo compreender este tipo de classificação linear: em primeiro lugar porque, se falamos da obra completa de um autor, nenhuma pode ser tão uniforme que se possa distanciar das outras; em segundo lugar porque me parece que, a ser possível classificar uma obra literária — algo de que não estou minimamente certo –, essa classificação não poderia ser nunca uma classificação relativa, isto é, nunca se poderia dizer que A é melhor que B, simplesmente pelo facto de o objecto produzido por A e o objecto produzido por B serem sempre diferentes — a não ser, é claro, que se trate de uma questão de plágio –; em terceiro lugar, creio, com todas as fibras do meu ser, que o único tipo de classificação possível de uma obra literária terá de ser, obrigatoriamente, qualitativa e subjectiva, isto é, A é bom para mim, coincidindo e reduzindo, portanto, essa classificação à experiência individual de leitura; em quarto e último lugar, ainda que admitindo o incompreensível esforço classificativo de Nabokov, seria impensável, para mim, atribuir a Dostoievski uma nota negativa. É certo que Dostoievski de Noites Brancas não é o mesmo de Crime e Castigo; mas também o Tolstoi de Anna Karénina não será exactamente o mesmo de Os Cossacos (e fecho aqui a discussão que inadvertidamente abri sobre essa controversa categoria de autor), mas não creio que Dostoievski fique a dever assim tanto a Tolstoi, ao contrário daquilo que Nabokov parece afirmar. Na verdade, neste momento em que terminei a leitura de Anna Karénina não consigo decidir qual dos dois tem, para mim, maior interesse: Crime e Castigo ou Anna Karénina?

2. Em nota de rodapé, Nabokov discute brevemente os problemas de tradução do apelido Karénina para inglês; em russo, um apelido que designe uma mulher adquire um ‘a’ no final, assim a esposa de Karénin é Karénina, a de Lévin é Lévina, o que em inglês, segundo o autor, não deve acontecer: para Nabokov, Karénina deve ser «Mrs. Karénin». De novo discordo de Nabokov; é essencial para o romance a pertença da mulher ao seu esposo — assim, Karénina é a esposa de Karénin algo que o título «Mrs.» não implica necessariamente; além disso — e neste momento recorro apenas à tradução portuguesa — em Anna Karénina são raras as ocasiões em que se usam títulos para os personagens: Vronski é quase sempre Vronski e apenas raramente Conde Vronski; assim, considero que acrescentar «Mrs.» ao nome de Anna deturparia a forma de tratamento preferida por Tolstoi.

3. Não posso deixar de concordar com Nabokov quando diz que Anna Karénina é profundamente diferente de Madame Bouvary, ao contrário daquilo que a crítica e os leitores menos exigentes acreditam: Anna não foi castigada por ter cometido adultério, mas por outra razão; não posso, contudo, concordar com a razão apontada por Nabokov: não creio que a relação de Anna com Vronski se possa resumir a uma relação carnal, mesmo que por oposição à relação de Lévin com Kiti; há muito mais a dizer sobre a complicada ligação de Anna e Vronski.

4. Como ler depois de Anna Karénina?

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Sinais de Fogo #12

19 de Maio de 2010

Terminei o grandioso livro. Sem dúvida, assistimos ao desflorar de Jorge. O que fica imperceptível é qual a transformação que nele terá tido maior impacto: a súbita consciência do mundo social (guerra espanhola e a asfixia da ditadura), o encontrar do amor transcendente (com Mercedes), a ligação profunda e confusa desenvolvida com outro ser humano (Luís), a consciência da influência de cada um na vida do outro — ainda que cada um seja, simultaneamente, o único responsável por si próprio (Rodrigues), o desflorar da veia poética; enfim, numa palavra, Sinais de Fogo é a consciencialização de que no man is an island. E, ao mesmo tempo, não é nada disso e é muito mais que isso.

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Sinais de Fogo #8

11 de Maio de 2010

Aviso à navegação (isto é, quem não leu e não conhece o enredo de Sinais de Fogo): sempre que falo em Jorge, não me refiro a Jorge de Sena, autor, mas sim a Jorge, narrador autodiegético.

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Sinais de Fogo #7

11 de Maio de 2010

Ainda não me referi à Guerra Civil Espanhola. Neste momento, interessa-me só apontar: Jorge é o homem que vai ficar em terra. Não sei que ilação tirar disto, para já.

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Sinais de Fogo #6

11 de Maio de 2010

Ainda sobre o primeiro encontro sexual de Mercedes e Jorge — o entusiasmo do narrador deve-se:

a) Hipótese ultra-romântica: ao amor inesgotável que unia os amantes;
b) Hipótese ultra-cínica: a Mercedes ser a noiva de outro homem.

Hipótese mais provável: somewhere in the middle.

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Sinais de Fogo #5

10 de Maio de 2010

E, mesmo que soubesse, eu podia sabê-lo, como de tudo, de três maneiras: por me contarem, por eu ter assistido, ou por eu ter participado. Quando não tivesse participado em alguma coisa, mas ouvido ou visto, o que me dissessem, ou o que fizessem diante de mim, seria exactamente a verdade?

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, 2003, p. 235-236.

A subjectividade do real é aqui perfeitamente problematizada por Jorge: se não fiz, como posso acreditar naquilo que vi ou ouvi? Os sentidos enganam. Falta-lhe ainda perceber que o real também foge àquilo que se faz: exemplo disso é a orgia de uma das noites anteriores que é sempre recordada como se tivesse sido vivida por outro, esfumada e irreal. O que é o real?

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Sinais de Fogo #4

9 de Maio de 2010

E, de repente, senti que, para além da identidade em que todos se diferençavam uns dos outros, uma coisa estava acontecendo, acontecera naqueles poucos dias, na acumulação de coisas que haviam desabado sobre mim: tudo desabava numa desordem sem fronteiras nítidas e passava a ter o valor que cada um lhe desse. Isto, porém, era ainda um segredo de cada um.

SENA, Jorge de
1979 Sinais de Fogo; ed. ut.: Porto, Público, 2003, p. 189.

Novo sinal de amadurecimento intelectual de Jorge: percebe, finalmente, que não há fronteiras no mundo, que não há «incólumes» e «marcados», mas que cada um é a sua própria desordem.

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Sinais de Fogo #2

9 de Maio de 2010

Jorge está no ponto sem retorno. Não se trata propriamente da perda da inocência — já não é virgem — mas antes o nascimento do homem adulto. O encontro com Mercedes não é uma iniciação sexual — não é sequer um encontro sexual. É a sobreposição física dos vários planos do romance: a guerra, o sexo, a maturidade, o amor, o conhecimento, a poesia.

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Mesmo aqui ao lado

21 de Abril de 2010

e eu não tive oportunidade de passar no LeV. Paciência, fica para o ano. Dizem-me que foi bom, mesmo com as ausências vulcânicas. Fico contente. Para o ano, para o ano.

[Estive para escrever: mesmo aqui à minha beira, mas não quis que se estranhasse o regionalismo].

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Light of my life, fire of my mind

2 de Abril de 2010

Releio, desta vez no original inglês. A cada palavra, génio. O primeiro capítulo da primeira parte é case in point.

Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth. Lo. Lee. Ta.

She was Lo, plain Lo in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly at school. She was Dolores on the dotted line. But in my arms she was always Lolita.

Did she have a precursor? She did, indeed she did. In point of fact, there might have been no Lolita at all had I not loved, one summer, a certain initial girl-child. In a princedom by the sea. Oh when? About as many years before Lolita was born as my age was that summer. You can always count on a murderer for a fancy prose style.

Ladies and gentlemen of the jury, exhibit number one is what the seraphs, the misinformed, simple, noble-winged seraphs, envied. Look at this tangle of thorns.

NABOKOV, Vladimir
1955 Lolita; ed. ut.: London, Penguin, 2000, p. 9.

Impressionante. O rigor e o encanto da aliteração disfarçada. O give and take do perverso Humbert que nos dá, de imediato, o desfecho da narrativa e provas da sua incoerência — ele, que durante toda a vida desprezou psicólogos e psicanalistas, oferece uma explicação baseada na infância para a sua preferência sexual. E a multiplicação de Lolita em múltiplas personagens aos olhos de Humbert (Dolores, Lola, Dolly, Lolita, Lo) que provoca a complexificação de um carácter que nas mãos de um autor menos talentoso se reduziria a um personagem-tipo sem interesse. Lolita é magistral.

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No dia mundial da poesia

21 de Março de 2010

em que tenho muito (muito muito muito) trabalho à minha espera, o melhor que posso fazer é pegar no Ruy Belo e na Canon e ir aproveitar o dia. Volto daqui a umas horas.

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A Single Man

21 de Março de 2010

a single man

George, o homem invisível.
Quando fala aos seus alunos, George assume que as minorias são tão mais temidas — e por isso mais perseguidas — quanto mais invisíveis. Referência clara à minoria homossexual. Ou talvez não. George é o homem invisível que não consegue deixar de ser notado. De manhã, quando observa os seus vizinhos pela janela da casa de banho, George é visto pela vizinha que o saúda; quando caminha pelo campus, George atravessa uma multidão de estudantes que caminha em direcção contrária, mas nunca choca com ninguém — os estudantes abrem-lhe alas; quando se senta, sozinho, num sofá do banco para procurar o livro de cheques, uma criança vem ter com ele. Atropelam-se os momentos em que o homem invisível é visto. Ele próprio o admite, nos minutos finais do filme: eu sou exactamente aquilo que aparento ser, desde que se olhe com atenção.

George, o homem que não consegue controlar o tempo.
George vive rodeado de relógios. Ao longo do dia em que o acompanhamos, quase permanentemente ouvimos em pano de fundo o tiquetaque. Planeou o dia ao pormenor, e mesmo assim George vê-se à espera do tempo — para sair de casa, para dar uma aula, para jantar. Isto significa uma de duas coisas: George tem o controlo absoluto do tempo ou George não tem qualquer controlo sobre o tempo. Escolho talvez esta última hipótese — quando lhe perguntam as horas, George não é capaz de responder porque o seu relógio de pulso parou.

George, o homem que vive em cores diferentes.
O controlo de imagem é subtil mas perceptível: quando George está sozinho, as cores são frias e melancólicas, quase preto e branco, quase sépia; quando uma analepse surge ou quando há uma interacção entre George e outro ser (não necessariamente humano), sente-se o calor do technicolor da década de 60.

George, o homem com o coração ao contrário.
Nada neste filme é por acaso. Então, deixo a pergunta: porque é que a dor que antecede o ataque cardíaco de George é no braço direito e não no esquerdo?

A Single Man, um filme quase perfeito. Banda sonora magistral. Fotografia sublime. Interpretações arrebatadoras. Realização brilhante. Os detractores desta película apontam-lhe, regra geral, o defeito de ser «artística». Como se chamar arte ao cinema fosse um insulto.

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Simão de Cirene #5

12 de Março de 2010

Ninguém pode saber quem é se não souber de onde veio. Um nome não é nada e é tudo: é o princípio, a primeira palavra e a memória que sobra quando se desaparece. Há quinhentos anos viveu João Nunes. Dele, tudo o que sei é o nome. Basta.

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Da historiografia literária

9 de Março de 2010

All literary histories are critical fictions. (p. xv)

BRADBURY, Malcolm e RULAND, Richard
1991 From Puritanism to Postmodernism. A History of American Literature, London, Penguin.
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Simão de Cirene #1

5 de Março de 2010

O nome é vital no romance de Toni Morrison. É mais do que mera etiqueta e, ao mesmo tempo, não passa de uma palavra tirada à sorte. Macon Dead, chamado assim devido ao erro de um soldado da União no seu registo, que não sabia ler nem escrever, teve uma filha a que chamou «Pilate», ou seja Pilatos, porque o seleccionou à sorte da Bíblia; o seu outro filho que herdou o nome de morto gera mais duas filhas a que, usando a técnica paternal, chamou «Magdalene called Lena» e «First Corinthians» [sic]. Sobra Milkman, irmão destas últimas, que herdando o nome paterno o faz esquecer pelo apelido que lhe foi atribuído ainda criança pequena. Convém esclarecer que escolhi o título para esta série de notas dedicadas a Song of Solomon usando a mesma técnica de selecção bíblica aleatória. Li dois capítulos.

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Quem tem medo de Virginia Woolf? #6

25 de Fevereiro de 2010

Não é um pensamento absurdo — nem brilhante — questionar a multiplicidade dos personagens de As Ondas. Isto é, seis pessoas que são, de facto, apenas uma. Bernard reflecte sobre isso no final. Ainda assim, sobra Percival, o personagem sem voz. Penso em voz alta: Percival, amado por todos durante a infância e a juventude, morre quando o sol atinge o zénite. Então, talvez Percival, idealizado na juventude, seja a face que não se completou no personagem-seis-personagens adulto. Morre por isso. Durante o resto do romance, os personagens relembram-no ocasionalmente, como o adulto que pensa «para onde foi o homem que eu sonhava ser quando crescesse?».

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Assinei hoje

24 de Fevereiro de 2010

o papel que diz, em traços largos, que pela primeira vez na vida (espero que não única) me vão pagar para fazer aquilo que gosto. Parabéns para mim e para o atraso de cinco meses.

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Quem tem medo de Virginia Woolf?

23 de Fevereiro de 2010

Eu tinha, admito-o. Quando era mais novo, talvez por saber que wolf era inglês para lobo e por ouvir insistentemente este título, comecei a desenvolver uma aversão à autora. Mais tarde, no início da adolescência, como muitos dos meus medos infantis, este transformou-se em fascínio e, a partir daí, comecei a estar particularmente consciente de tudo o que rodeava Virginia Woolf. Mais tarde ainda, quando comecei a voltar-me para a literatura e a ler quem era Virginia Woolf, o medo voltou. Há uns dias atrás, larguei o medo. O fascínio voltou.

Sim, tudo é propício. Estou no estado de espírito adequado. Posso escrever de um só fôlego a carta que tantas vezes comecei. Acabei de entrar; deixei cair o chapéu e a bengala; estou a escrever a primeira coisa que me veio à cabeça sem sequer me ter dado ao trabalho de endireitar o papel. Irá transformar-se num esboço brilhante, a respeito do qual ela deverá pensar ter sido escrito sem uma pausa, sem uma emenda. (p. 57)

Woolf, Virginia
1931 The Waves; ed. ut.: As Ondas, Lisboa, Público, 2002.
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Whatever works

22 de Fevereiro de 2010

«If you’re one of those idiots who needs to feel good, go get yourself a foot massage».

O que é estranho, é que este é um dos feel good movies of the year. A ideia de que podemos encontrar felicidade na disfuncionalidade que funciona é bem mais apaziguadora que um ideal romântico de perfeição. For me, I’d rather have whatever works.